TRÊS POEMAS DE CRISTHINA RANGEL

O PAPEL E EU

Me parece que a cada poema meu que escrevo mais sensível fica a gramatura..

É como se tudo fosse seda, o papel, a minha pele, o meu desejo e partem-se tão facilmente ao toque das minhas penas

E assim rompidos transpareço a dor e essas feridas que me agitam .
E mesmo quando tento esboçar flores, são mais fortes os espinhos e permaneço sem primavera..

Sequer posso contornar a minha mão, pois ela treme e desfigura a superfície que espera
E então ficamos parecidos, eu com essa minha cara amassada de dormir sem sonhar e ele com o peso do vazio sem poesias... Servindo-me de lenço.


Eu não quero a palavra rara
quero a palavra clara
A palavra calma
Quero a palavra que sana
Toda dor

Eu não quero a palavra inédita
Quero a palavra que credita
Vida em mim

Eu não quero a palavra inusitada
Quero a palavra alada
Que dá asa e não tem fim

Eu não quero a palavra concisa
Quero aquela que explode
Que é grito, e consiga
Ser silêncio dentro de um olhar.

(dos meus silêncios)


DESTE-ME O SILÊNCIO PARA OUVIR-TE

Deste-me os olhos para perceber a delicadeza das pétalas ao vento.
E os pés miúdos das crianças caminhando,
O ronronar do gato manso , o rabo agitado do cão brincando
Deste-me palavras e letras, e linhas tortas em que escrevo, e só algumas vezes acerto.
Permitiste-me o erro, para ponderar o que me falta, o que me faz íntegra.
Nenhuma concisão me destes, e falo, falo pelos cotovelos, invento, imagino, escrevo...
Deves rir-se tanto de tantos erros, de tantas dúvidas que tenho e falo ao branco do papel como quem fala aos céus, buscando um ouvidor...e encontro!
Também disso deves rir, das minhas garatujas de adulta, deves rir comigo, quando eu choro de fazer beicinho e me forço a chorar mais um pouco pra esvaziar das coisas que me machucam.
Nada sei de Ti, nenhuma teologia me explicou a regra pra sentir sua presença, nenhuma hermenêutica transformou os meus sentires, nenhuma escatologia facilitou a minha marcha.
Fui de Calvino à Lutero, de Darwin aos estudos da NASA e nada, nada me explica o que é ter seu toque. As filosofias vãs da vida, não me deram calma, não me deram verdades absolutas, não me convenceram que eu sou apenas carne, e no seu toque sei que sou apenas parte.
E no silêncio, os pensamentos maiores que os meus, nas palavras mais simples eu te encontro, em toda parte o percebo. E é sempre assim com um sorriso pra mim que te abraço, loucamente te abraço retenho em mim a sua essência amada e mais um dia passa.
E nada sei além do que eu sinto, nada anseio além do simples "isso" que tenho aqui comigo, e não importa o que digam quando me veem rindo sozinha pelo caminho, esse "Isso" me aprimora.


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