TRÊS POEMAS DE CHARLES BURCK


E assim viajo, muito, entre o ali e o agora,
Anotações dos tempos de esperas, rascunho de uma vida
O abstrato das ideias na realidade da grafia
Um ponto, uma vírgula na sua forma mais pura,
Morre-se quando não há memória, ficamos soltos como pena sem asa
Horas e horas a fio a fio, nas tempestades mentais,
Nas serenidades da cidade que dorme
Observo-a apenas com a alma, sem pressa e sem calma, cá de dentro de mim, sozinho,
Escrevo noite dentro contra ao que me induz à desistência,
Os argumentos das ausências como se tudo fosse perda de tempo,
Escrevo como quem conversa com a alma,
Como quem se solta aos poucos, depressa, devagar, das prisões internas,
Das distâncias que nos chamam, dos afastamentos, de um dia intenso sem o calor da tua companhia,
O que nos dá a ideia de sermos um continente, um tanto mais do que uma ilha,


Gosto de me sentar ali, na mesma pedra e olhar os barcos fazendo rabiscos no mar,
Uma forma minha de pescar palavras para fazer poemas,
Nas manhãs deste tempo, pois dos outros não lembro bem
Chegaram-se a mim o povo do mar, nos arrepios de tudo novo
A costurar assuntos com linhas de algas azuis dos mares mais longe,
Agulhas de espinhas de peixes a cozer os ventos opostos para sossegar o céu
A brisa de curar feridas abertas pelos dias severos, sentir os braços do ar usando medicamentos de cuidar por dentro
Ausento-me muitas vezes do mundo para ganhar forças, visitar algum sitio marinho
De amamentar botos e levitar baleias,
Trago sempre comigo tantos segredos depois de partir,
Das sinfonias de sereias e outras coisas tantas que eu não me atrevo a perguntar,
Faço viagens sem prazos de voltas, o que me chama finjo que não ouço,
Há uma eternidade que nos une e se propaga em ecos dos sorrisos baixos das marés
Somos feitos da mesma essência, eu de azuis profundos e ondas sem sossegos
E tu de tantas histórias de monstros e piratas, lendas que banham essas praias,
Da ostra que sou feito, de perolas e areias, fossas abissais, Netunos e tridentes
Velhas orações de afastar serpentes, sons de choros e lamentos carregados pelas correntes,
Antigas canções de enfeitar corais com flores, deusas dos mares a chamar amores.


A felicidade que vemos não é plena, é uma parte apenas do todo,
Um torrão de açúcar que a formiga pega pensando ser o Universo,
Uma forma tão sutil que mal combina com as nossas formas de arame farpado, de concreto armado, de estruturas dramáticas
Nem sempre temos a consciência quando ela acontece,
Porque as nossas necessidades são imediatas, urgentes, e estamos dentro de nossas tão imperativas tragédias
E ela é imprevisível e fugaz, subtil e peculiar
Você sentada nos meus joelhos, uma luz verde refletida na vidraça,
Um sentido de maturidade ao que compreendemos os avisos da vida
Um dia em que não quero fazer nada, mas não pela opção da preguiça,
Mas destinado de uma maneira quase inocente de satisfação,
O contentamento, o êxtase de dilatar as pupilas dos olhos
Ao que olhamos direto nos olhos da felicidade
E nos damos conta que precisamos de tão pouco para que ela nos responda.

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