TRÊS POEMAS

                                 Da poeta ÍNDIA ONHARA na Revista de Ouro
CRISÁLIDAS
.
Numa estrada de pedras
caminhei — e
nos sonhos me perdi.
Os mares, o Sol e a Lua
[tão soberanos]
na minha vida tão crua
— que refiz.

Minhas raízes...
Entrelaçadas às pedras
[no chão]
e meus frutos
na melodia de meus versos
— espargiram-se
no imenso céu azul
de olhar terno.

E, nos campos ao longe...
Da visão da borboleta 🦋
ao suas asas se abrir
eu revivi.

Nas folhas secas
[do sombrio inverno]
e na lufada da noite
— o açoite.
'Sombras' percorriam
[entre a neblina]
e o albatroz algoz
no orvalho buscava
— gotículas
que lhe saciassem
a sede.

Eis que diante do Portal...
Saúda-me, a Foice da Morte:
— Sou eu quem te sepulta
as ideias e quem lança-te
à escuridão;
— Sou eu quem te despe
do santuário;
— E sou eu quem te conduz,
a ser triste e solitária.

Respondi-lhe, tal Poeta que sou:
— De tuas profecias, já padeci
e saúdo-lhe p'ra que siga em paz.
— Eu sou a Poeta
[que em meio]
a fortes ondas, renasci.

Meu cântico, cantarei nos céus azuis
e rogo p'ra estrela-guia
— guiar-me na tua Luz.


A PESCADORA DE LUAS
.
Eternizam-se na memória
- no embalo do vento -
Absorvidas pelo nó sorvido
- com gosto de maçã -
Emoção em gotas cítricas e hortelã.

Das pupilas e das contas d’água
- do verde mar de seus olhos -
Da bruma espuma, nódoas de solidão
O vinho escorre nas veias, rompendo o chão.

Arranco calhetas e cascalhos
Do ferrolho de meu peito
- sou pescadora de Mim -
Húmus mudos
Fragmentos que perdi...

A Luz espalha o seu aroma
Na Terra que fenece
Irrompe em tempos estranhos
Onde se tinge de sangue
Precipita-se ao Sol e
Só se detém, ao amanhecer.

Vislumbro o oceano
- no marejar de meus olhos -
E ao trazer a alma azul do mar e do céu
Eu chorava ao voltar para a Terra.

O imaginário da Lua inspira-me
- a mulher guerreira -
No fundo do lago ou de Yaci...
Qual espelho da Lua, na face refletida

O antes e o agora
- pescadora e cavalgante -
De águas e terras distantes
Neste agreste pernambucano mundo aquoso.


DO ALVEDRIO ESPELHADO

Do alvedrio espelhado
- pela candeia -

Um cheiro de rosas
Um brilho nos olhos  Ilumina-me os lábios na taba sombria.

Derramo...
Uma lágrima oculta
Uma fotografia à tua alma

Um cheiro de canela, pimenta e chocolate no ar...

Sorrio
- como pequenina pétala de cristal
como se fosse partir devagarinho
[ao leve contacto com o ar]
como se tudo fosse parar agora -

E cantos baixinhos me aconchegam
- como se quisessem me embalar -

Sussurros...
- saltitam de lá para cá –

Bailo com as mãos...
- e como se me escondesse
fecho os olhos e contemplo
o amanhecer -

O vento que acaricia-me a face
O cheiro da terra
O frescor da bruma
O sabor do vento
- trazem-me um sorriso -

Vislumbro...

Passos, tatuados à beira mar
Segredos, numa caixinha de Pandora
O bater das asas dos pássaros
O curso dos rios e mares
Os saltos das águas em cachoeiras.

No brilho da Lua...
Colho dos cestos floridos, o passado.
E sei que nada disto me é eterno, nada é meu.

Um comentário:

  1. Radyr querido, muito grata e honrada
    em participar dessa Revista maravilhosa!
    Sucesso sempre... ❤️

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