SETE MULHERES VESTIDAS DE POESIA

Nesta sessão com sete escritoras fantásticas: NASSARY LEE, LILLY ARAÚJO, CLAIRE FELIZ REGINA, CRISTHINA RANGEL, RUTH CASSAB BRÓLIO, ELKE LUBITZ e CLAUDIA MANZOLILLO
THE BOOK THIEF (A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS)
NASSARY LEE
Se fugir só com uma bola fosse possível.
Se ostras prateadas no céu clareassem rostos.
Se soldados – velhos, banguelas – não fossem necessários.
Se peixes nadassem apenas para catar livros molhados.
Se o beijo fosse dado só na hora da morte.
Se feridas em joelhos fizessem-nos ganhar tempo.
Se trocássemos porões por noites estreladas no meio de fogos de artifício.
Se segredos fossem calados só por crianças.
Se procurar por palavras em páginas limpas fosse o mesmo que escrever.
Se ele viesse um dia a se tornar homem quando homem já era desde menino.
Se acordeões musicassem meninas em mantas empoeiradas de escombros.
Se roubar não fosse crime...
Se a neve – areia branca – soterrasse sonhos e os congelasse pra sempre debaixo dos nossos pés no frio.
Se cada lição de vida fosse grafada em dicionários de giz nos muros
e pudéssemos recorrer a cada letra em seu verbete antes de errar.
Se pra correr com a dor não precisássemos nos pintar de preto.
Se guerras fossem travadas entre países e não entre pessoas.
Se o amor não precisasse ser provado a cada segundo; se livre, por si só, bastasse.
Se Rudy existisse de verdade; sim, eu me apaixonaria!


ASSASSINATO EM DIVERSOS GRAUS
LILLY ARAÚJO
Matou o primeiro amor de excessos.
O segundo matou de falta.
Matou o terceiro de indecisão,
e o quarto porque decidiu matá-lo, e pronto.

Com vinte e poucos anos
já se tornara uma exímia assassina,
nada fria e calculista,
pois matava sempre passionalmente,
haja vista.

Por ser ponderada,
nunca matava o objeto do amor,
mas o amor em si, o estilhaçava
na ânsia de descortiná-lo
e encontrar enfim, o verdadeiro.

Seguiu matando, matando, matando...
Nunca desistira do ofício,
por mais árduo que parecesse.

Qualquer hora dessas, pensava,
ou morreria de amor,
ou o amor a salvava.

A RECEITA DE BOLO
CLAIRE FELIZ REGINA
Meu vizinho queria fazer um bolo,
me pediu a receita.
Eu não tinha a receita,
mas eu tinha vinte anos!
Fui ajudar...
Não tinha farinha para ele amassar
com as mãos,
ofereci meu corpo
e ele amassou.
Não tenho açúcar, ele me disse,
ofereci meus lábios
e ele beijou.
Ele era bom cozinheiro,
pôs o leite para ferver,
o leite fervia no meu corpo inteiro.
Nós dois queríamos fazer o bolo,
mas...e a receita?
Ele abriu o caderno,
estava escrito,
me ama.
Não fomos mais para a cozinha
fomos para a cama.


QUALQUER SAUDADE
CRISTHINA RANGEL
Tenho mãos pequenas que buscam sonhos imensos
Que afagam o rosto que redesenho
Que escrevem verdades tristes,
Como quem fere e marca um pinho

Uma paisagem mansa na alma
é o que me acalma
E quando o tropeço fere, caio na areia
De uma praia qualquer distante

Ouço a melodia do rio, que corre em mim infante
E me revigoro no brilho das estrelas
Me escondendo em meu anonimato de gêmeos
E no deslizar dos meus lábios

Nos lábios do meu amor,
fazendo gozar o corpo 
Aborto a dor, deixo pra lá..

Qualquer saudade...

 


SE ESCREVO...
RUTH CASSAB BRÓLIO
Porque o faço num turno tardio,
sem nenhuma pretensão,
ainda pelo ardil oportuno
a pueril artimanha
ao dar ouvidos à forma
de ver e expressar a meu modo
o que, por certo,
todo mundo já viu.
Perpétuos centros
de universos próprios,
reis sem cetros, coroas ou mantos
somos também réus confessos
da mesmice da solidão.
Nossos ecos escorrem, percolam
por desertos estranhos, extensos, perversos
( e às vezes aqui bem perto)
à busca de interlocutor.
Que em tempo de tantos recursos,
somos mudos, escravos, reclusos.
E a poesia,
é só via, vala comum, dupla mão
(- ou não, assim diria Caetano...)
como um telefone sem fio, linha reta,
que fale a linguagem das almas
sem intermediação nenhuma.


ALGUNS SÓIS
ELKE LUBITZ
nas curvas do espaço-tempo
eu vi tantos sóis
a dobrar pequenos infinitos
universos abriram-se
em elipses
em elipses
e alguns choraram
a morte de uma estrela
tantos sóis em mim
a romper auroras..


DISFARCE
CLAUDIA MANZOLILLO
Exilada de mim
me acho no sorriso
pendurado no cabide
pronto para vestir
minha boca e sair
por aí.

Ai de mim
sem esses comigos
sem os saraus
interiores
interlúdios
na sala íntima
do ser.

Um comentário:

  1. Poesia tocando profundo o berço d'alma. Parabénsssssssss às grandes mulheres. Em especial,a poetisa Nassary.

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