QUANDO TUDO FOR SILÊNCIO

Um poema de PAULO MIRANDA BARRETO

Desde pequeninho eu adivinho nuvens 
entretenho Astros e distraio estrelas . . .
Decifrando o nada, leio mãos, vertigens

chuvas de fuligem, tardes amarelas. . .
A tecer poemas calejei meus olhos
enruguei meus sonhos
esgarcei meus céus
E essas poesias . . . Deus! O que fiz delas?
Veleiros sem velas
feitos de papel
Abrindo feridas na boca da noite
segui murmurando versos que inventei
sem rumo, sem norte, sem rosa dos ventos
sem dia de sorte, sem saber se sei. . .
Quem sabe um abismo no fim do horizonte
no fim do arco-íris, no fim da ilusão
um dia me encontre, me engula, me conte
me arraste ou me aponte noutra direção. . .
Por enquanto avanço, danço com fantasmas
falsas almas pasmas . . . simulando espanto
Sigo, por enquanto, cavalgando lesmas
Sim! Cavalgo lesmas . . . lesmas . . . e, no entanto
sinto que no rastro vasto que elas deixam
um ágil labirinto se desenha. . .
(Talvez seja por ele que Deus venha
buscar-me quando tudo for silêncio)
Por ora, sigo atento aos meus murmúrios
barulhos, invenções de meus ruídos
poéticos, patéticos, espúrios
escritos sobre a areia . . . e nunca lidos
E enquanto o Sol resvale em minha língua
e a lua á mingua espelhe-se em meus olhos
e a poesia em mim não seja exígua
e eu não maldiga a burla dos imbróglios
serei poeta anão no mundo enorme
dublando as madrugadas mais aflitas
escravo das palavras lidas, ditas
escritas á carvão num chão disforme. . .
Sigo desperto enquanto tudo dorme
colecionando sonhos e desditas
á espera de que um verso me transforme
em luz dentro das trevas infinitas!

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