O SONETÁRIO DE FRANCESCO PETRARCA

 

III

Se a minha vida do áspero tormento
E tanto afã puder se defender,
Que por força da idade eu chegue a ver
Da luz do vosso olhar o embaciamento,

E o áureo cabelo se tornar de argento,
E os verdes véus e adornos desprender,
E o rosto, que eu adoro, empalecer,
Que em lamentar me faz medroso e lento,

E tanta audácia há de me dar o Amor,
Que vos direi dos martírios que guardo,
Dos anos, dias, horas o amargor.

Se o tempo é contra este querer em que ardo,
Que não o seja tal que à minha dor
Negue o socorro de um suspiro tardo.

  
VIII

Ó Pai, depois dos dias ociosos,
Depois das noites a velar em vão,
Com este anseio no meu coração,
Mirando os atos por meu mal viçosos,

Praza-te, ó lume, que a outros mais formosos
Caminhos e a mais bela ocupação
Eu me volte, fugindo à dura ação
Do inimigo e aos seus meios cavilosos.

Dez anos mais um hoje faz, Senhor,
Que me vi submetido à tirania
Que sobre o mais sujeito é mais feroz.

Piedade tem do meu não digno ardor,
Conduz meu pensamento a melhor via,
Lembra-o de que estiveste numa cruz.


XXXII

Quanto mais perto estou do dia extremo
Que o sofrimento humano torna breve,
Mais vejo o tempo andar veloz e leve
E o que dele esperar falaz e menos.

E a mim me digo: Pouco ainda andaremos
De amor falando, até que como neve
Se dissolva este encargo que a alma teve,
Duro e pesado, e a paz então veremos:

Pois que nele cairá essa esperança
Que nos fez delirar tão longamente
E o riso, e o pranto, e o medo, e também a ira;

E veremos o quão frequentemente
Por coisas dúbias o ânimo se cansa
E que não raro é em vão que se suspira.

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