DEZ POETAS CONTEMPORÂNEOS

Queres ser um bom poeta? Observe. Observe e leia os poetas... Os clássicos... Os poetas medianos, os poetas não muito poéticos, os poetas contemporâneos, os poetas contemporâneos acima da média... A Revista de Ouro apresenta nesta edição dez poetas fantásticos, verdadeiras pérolas de onde você poderá extrair inspiração, tomar pra si esta energia e ser um com eles. Nesta edição com DAVID MOURA, RAIMUNDO LONATO, PAULO MIRANDA BARRETO, VALDECI ALMEIDA, WASIL SACHARUK, BENTO CALAÇA, JOSÉ DE CASTRO, EDY GONÇALVES, S. QUIMAS e NILSON VIEIRA MORENO. 

VALORES INFUDADOS
DAVID MOURA
"E pasmo de que, sendo um Satanás,
Com tinta faças o sinal da Cruz!"
Bocage

Dissecarei teus vícios e mazelas
Co’a precisão das lâminas fatais,
Pois eu já consegui provas cabais
Contra as podres mentiras que revelas!
Se a multidão te escuta enquanto vais
Desfilando o teu rol de frases belas,
É porque desconhece que estão nelas
Os horrorosos gritos dos boçais!
Giras como um inseto moribundo
Em doidos rodopios alternados
Às voltas do que finges ser teu mundo:
És só um caso a mais de alienados
Que culminou com teu amor profundo
Por todos os valores infundados!


A CONQUISTA
RAIMUNDO LONATO

a conquista começa pelos olhos.
agarre-se à vida e não chore no fundo
das piscinas tumultuadas pela chuva.


há contornos nas esquinas.


o solo de valsa, vai do céu
aos quintais.


invista na mistura do que sou:
um tanto de água clara e pura
um tanto de sol, sombra e sal.


há excessos nas estações.


o outono amarela antes da hora.
Olhe-me...

siga os rios, adormeça no cais.
cante no movimento dos lenços,
não perturbe o voo das águias.


meu sonho é o mar
onde navegam as fantasias
bem longe dos carnavais.


na escolha das rotas, vou
ao Nordeste e ao Caribe.


sei que não aprendeste
nada do frescor da brisa
e do cheiro das serras.


não te assustes nunca.
O que tenho não falta.

sinta a leveza dos barcos.
nada é pouco em mim!





RUBEDO
PAULO MIRANDA BARRETO
raio
debaixo
de chuva


rio
debaixo
de Sol


no vinho
adivinho
a uva

na treva
invento
o farol


minh’alma
é nuvem
e árvore

é água
e pedra
de sal

é fogo
fumaça
e mármore

início
e ponto
final


na reta
prevejo
a curva


(acho
Deus
num rouxinol). . .


minha vida
curta
e turva

furta a cor
de um
arrebol. . .


ela é noiva . . . ela é viúva
e ela uiva
em si bemol

no meu
silêncio . . .
ela uiva

quando rio
sob
a chuva

quando raio
sob
o Sol.





PÔR -DE -SOL
VALDECI ALMEIDA

Parte o sol no ocidente... Já cumpriu
Seu oficio de o mundo iluminar!
Passa a bola da luz para o luar:
Balão de sonho pelo céu anil.

E para nos seus ninhos se abrigar
A passarada em festa regrediu.
Desgarrada, uma estrela lhes seguiu!
No teto do céu outras vão brilhar.

Das centelhas solares negro manto
Tecem os grilos por todos os cantos!
E forjam uma lua indescritível!

E o quedar da noite desfaz sombrio
Mais um pôr do sol que não aprecio
Junto de ti, meu amor impossível!


A MENTE DANÇA
WASIL SACHARUK
a mente dança
o corpo dói
despenca harmonias
por ladeiras mansas
a mente insiste lembranças
o corpo reclama descanso

morro enquanto danço
minha alma intui
versos de poesia
e murmúrios de barganha
pelo sopro do vento
e cruzar as distâncias
com os pés fincados
no chão

enquanto dança a mente
o corpo doente
deságua
desanda
mas a mente canta
enquanto traga o tempo

o corpo lento
cadente
mergulha
afunda
mas a mente nada
enquanto resta a vida

a mente dança
sobre a carne
a moléstia
dolorida
e convida à dança
o corpo reclama o remanso.


TORMENTA
BENTO CALAÇA

Feras deitam unhas na noite
Luz sombra sangra gemendo
Carne fresca vendida em orgias
Por parasitas que engordam

No desespero que a fome traz
Corpos nus evaporam - se na noite
Perdendo o orgulho ganhando em ira

Possuídos devoram o ócio até o tutano
Olhos de peixes nas mãos corroídas
Com línguas e falos a pele tateia

Os corpos amanhecem ocos
Umbigos entram em órbita
A nave cheira sangue e sêmen
olhos mortos fitam os céus.


AS CORDAS DO TEU CORPO
JOSÉ DE CASTRO

As cordas do teu corpo
têm o timbre exato
dos acordes do delírio táctil
que me fazem à cor dar um tom azul
de arrepios em blues.

Se me tocas
tanges-me a lira da poesia
e arranhas a sinfonia rouca do tempo
pouco
que ainda tenho para sonhar.

Se te toco
sou maestro tosco,
louco apenas para a tua
melodia, ao som da lua,
dedilhar.


PEQUENOS DEFEITOS
NILSON VIEIRA MORENO

pois eu nunca tive defeitos pequenos
há tempos não peno sonhando-me o eleito
exceto uns senões sou até bom sujeito
tirando o sem jeito até sou mais ou menos

o réu mais direito a mim mesmo condeno
confuso e sereno confesso e suspeito
posando de ingênuo meu caos é conceito
demais contrafeito do próprio veneno

sou juras e juros cobrados na fonte
desculpas aos montes e enormes securas

temendo a censura que vem do horizonte
no meio da ponte meu salto procura
que a própria paúra por fim se amedronte
e um verso desponte de cada fratura.


DE S.QUIMAS

Tenho vivido.
Se é que vida pode ser descrita
Através de minhas horas.
Um misto de renúncia à lucidez,
Uma agonia a toldar minha mente,
Um dissipar de qualquer razão,
Um assumir a sua natural insanidade.
Mas, tenho vivido
E por completo o que posso.
As pessoas andam nas calçadas
E as tenho observado.
Não são elas menos loucas,
Não são mais geniais
E mais esclarecidas do que eu mesmo.
São apenas outras pessoas
E não são eu mesmo.
Tem horas que me apavora
A lucidez que me traz
A loucura que me domina.
A cada instante descoberta
E um sem limite de turvação.
Já não tenho que ir a lugar nenhum,
A minha varanda no segundo andar
Já recebe bastante sol
E minha janela
É todo o horizonte
Que minha alma precisa.
Talvez não precise mais de versos,
Talvez não necessite
De todas as imprecisas falas.
Essas de modulações
De harmonias que já não sei.
Possa ser um findar
Com imensa calma,
O verso nunca iniciado,
Aquele jamais acabado,
A possibilidade e a renúncia.
O regurgitar a fome
Da total falta de apetite.
Ser a afirmação e a antítese.
O ser e o nada.
O passo, estrada
E o abismo em que me lanço.


NUNCA MAIS
EDY GONÇALVES

Nunca mais dos teus olhos os astros,
Nunca mais dos teus poros delícias,
Nunca mais dos teus dedos carícias,
Mais brilhantes, porém, nossos rastros.

Nunca mais o voejar contigo,
Nunca mais um amor verdadeiro,
Nunca mais viração do teu cheiro.
Tudo morto... Mas vive comigo.

Ao pensar no que sou, reconheço:
Não sou mais que lembranças fatais.
Se a beleza perdeu-se, esmoreço

Nesta vida e caminho pra trás.
Ouço o corvo de Poe e enlouqueço:
Nunca mais... Nunca mais... Nunca mais...

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