A VERVE DE NASSARY LEE

O BEIJO

Essa tentativa estranha
de arrancar a alma pelas entranhas
Esse sorriso calado por língua
Essa mania de me tirares da linha
Esse verso que se escreve com lábios
Essa troca de silêncio no sussurro da sorte
que é te ter tão perto
E a olhos fechados e a punhos abertos
Essa felicidade molhada no céu de tua boc'armim
Essa cumplicidade, esse instante sem fim
Ah! O beijo: essa máquina de salivar luz
Um xadrez de sentimentos no interior do desejo
Essa saga musical que não se ensaia
Essa lembrança quente do corpo
Essa saudade que nos pede um outro
E outro, e outro, e mais um outro... beijo
Essa coloração-coração imediatamente reconhecida
Por um encontro de có
No beijo roubado por ti, infrator
O beijo da morte e "o beijo de Rodin"
Essa maneira estranha de dizer
Que eu te quero no meu amanhã
A despedida envenenada de Romeo
O subeijo da paixão, a febre, o rubor
Na marca da carta: o declame do escritor.


MORTE SÚBITA

Diz-se, à boca miúda, que quando se beija um poeta
as letras percorrem o céu da boca em forma de pista,
viram trem-bala e morrem no peito em faísca
constelação: é tiro e queda...


MONOLÉXICO

O teu beijo: febre
Tua boca: pede
Teu olhar: puto
Teu carinho: responde
O teu mar: não
No teu abraço: passo
Tua voz: recito
O teu mel dedico:
Eis-me!

...
(Do livro Entre becos e sonhos, 2014)


Um comentário:

  1. Nossa!! Todos poemas bons de ler e entender o quanto você é poesia viva! Parabéns amiga!!

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