A VERVE DE LILLY ARAÚJO


APATIA

Hoje ninguém me tirará de dentro de mim
Quero o aconchego do toque do cetim,
o abraço soturno das penas da graúna,
e o silêncio gélido da criatura noturna.

Amanhã não sei mais se será assim como outrora,
ou se os sonhos se desvanecerão na aurora,
por hora, isso é tudo que quero estar: - perdida no breu;
no dentro; no fundo; no impenetrável do eu.

Hoje eu quero me resfolegar no vinho tinto,
despedaçar sem piedade a minha taça,
e deglutir o paladar do absinto.

Amanhã talvez nasça outro desejo proibido,
e se me vêm outros ares de graça,
eu finjo que sou uma criança a brincar na praça.


PRIMEIRA VEZ NA TUA LÍNGUA

O mar me lambeu hoje
com a intrepidez daquele que sabe o que quer,
e o discernimento de oferecer
o que mais deseja uma mulher.

Lambeu-me entre as pernas,
num súbito atrevimento desejado,
mas não antes de olhos nos olhos
e um beijo profundo,
e promessas de um hoje terno e absurdo.

O mar lambeu-me entre as pernas,
e eu gozei ostras sem pérolas,
porque agora não havia sofrimento.
Não nesse exato momento.


HORIZONTAL

Tento prender os meus dedos
nas coisas que me alcançam,
engastalho os olhos em tudo
que desfila colorido em minha frente,
pra disfarçar o preto e branco da minha tinta
que já se acabou.

Fecho o nariz para não sentir
o odor de fruta vencida
que exala de minhas virilhas esquecidas,
sem um paladar há tanto tempo;
sem ruídos;
sem horizontal;
sem contorcionismos...

Eu me vou por aí apenas indo,
tentando prender os meus dedos
nas coisas que me alcançam,
inutilmente.


A CONTA

Depois do último gole,
e refeita do último trago,
eu titubeio por entre o salão
rumo à porta de saída.
A música tortuosa e em descompasso
afugenta-me os pés, já trôpegos demais
para uma última dança.
Pago a conta.
E no caminho, entre o caixa e a sarjeta,
tropeço em lábios quaisquer.
Limpo os olhos,
na certeza do rímel escorrido,
pergunto sobre uma esticadinha
subentendido por um sorriso cínico.
Sigo o ritmo que já nem ouço,
e nem é preciso, pois o sei de cor.
E entre um strip-tease de quinta,
e um sexo de sexta,
eu apenas engulo tudo e pago a conta.
Eu sempre pago a conta.


TE AMO FEIO

Eu te amo, como os raios
de uma manhã esbranquiçada
despejando as lambidas
desavergonhadas do sol sobre
as moçoilas que usam fio-dental.

Te amo como os dentes afiados
de um tubarão faminto, e entre
a anágua da água-viva
a tatuar a pele de banhistas.

Te amo leve,
como a pena da águia
a despencar, solta,
dos céus azuis e infinitos,
e como toneladas de oceano
que enterram navios vivos
que não mais são.

Te amo feio,
entre as partes mais escondidas
e mal cheirosas do corpo,
onde nos deleitamos no
bálsamo do prazer
sublime e santo.

Eu te amo
sem ter que explicar,
ou mesmo que entender,
para que serve amar tanto.

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