A VERVE DE CHARLES BURCK


No julgamos e colocamos as nossas cabeças a prêmios
Nenhum ganho aos dois carrascos,
A ferida mal curada
A cicatriz mais profunda,
Maior que a dor,
Tão bem cuidada,
Que a cura nem era um das opções imaginadas

 ♣

Quem há de querer saber o que sente um poeta?
A não ser, talvez, o que escreve,
Se a boca da noite deu bom dia, ou se o ventre da terra abortou algum verme
Se a minha demência é sadia ou contagiosa,
Nos dias sombrios quantos nasceram como estrelas brotadas dos sonhos de alguém,
Do que me consolaram minhas ideias, dos poemas que nasceram e morreram só de pai sem mãe,
Hoje já não há ninguém: para nascer ou morrer,
Desaparecida a memória, preciso de outras motivações,
Estar sozinho, rodeado de solidão apenas,
Canções esquecidas que ninguém mais canta,
 As vidraças que impedem os ventos de vir trazer notícias,
Um cão que envelhece na companhia do velho poeta, igualmente só.


 Aqui fora, por vezes, a culpa não acha os culpados,
Vive de acenar para qualquer um como as moças do bordel,
Mas o prazer tem o corpo livre de denuncias
E me aborda com a boca salivando de gosto,
O sabor depende dos alinhamentos dos astros,
Das sintonias plenas, das tardes amenas dos verões,
Mas numa noite escapada a culpa pega alguém,
E sorrir com desdém de quem veio para ficar,
O menino lava o corpo como se água e sabão fosse bom para limpar a sujidade de dentro,
Mal sabe que as culpas se desbotam ao que vivemos, ao que a observamos sob outros pontos de vista,
Empresto-te menino meus óculos escuros, ou a minha borracha de apagar culpas,
Minhas melhores desculpas para fazer poemas,
Minhas serenas penas que se despem antes que doam,
Um leve aceno depois dos beijos, um até breve, de quem sempre volta.


Nenhum comentário:

Postar um comentário