A QUINTESSÊNCIA DE UM POEMA TRISTE

Um poema de RADYR GONÇALVES ilustrado pelo artista FLAMARION TREVISAN
        Ilustração • " O Face Oculta " do artista Flamarion Trevisan 

A quintessência de um poema triste
Um fado de Ana Moura cantado por um querubim deprimido
E uma nuvem do tamanho de um pé adivinhando chuva...

Não tenho permissão para chorar
Para suicidar-me não tenho uma corda
A vida tem muitos protocolos
Muitas leis, cláusulas – a letra mata
Mais que polônio

No litoral norte do meu peito há um rio de água salobra
Um pé de lírio mirrado, um vira-lata semimorto
E um contador de histórias que divaga na retórica

Esse contador reza para que o mar se abra
Para que ele possa passar com sua novilha
Suplico, mesmo sem fé, por esse contador infeliz!

Mas eu não tenho forças para terminar um poema
Não tenho competência para abrir estradas
Não tenho pulso e passo o tempo
A desfiar segundos, capítulos, momentos, horas...

Certas tristezas paralisam um homem

Eis-me aqui - a ave de arribação que arremeteu
E posou medrosamente no galho seco do lírio

Perplexo, observo o contador de histórias rezar para o mar se abrir
Enquanto simplesmente silencio
Incrédulo de tudo...


Nenhum comentário:

Postar um comentário