A DESCOBERTA

Um poema de NILDINHA FREITAS

Perdida
Peguei o ônibus
Da linha cinquenta
Adormeci
E, acordei na última parada.

Por uma noite inteira
Rodei pelas ruas da cidade nua
Sem saber como voltar
Para o seguro lugar
Da minha cama quente.

Despida de todo pudor
Embriaguei-me de amor
Fiz-me mulher
Nos braços de um estranho
Mas fui eu quem o escolheu
Entre tantos homens do bar.

Um homem perfumado
De sorriso seguro e largo
Que me segurou firme
Na hora de dançar.

Eu não sabia ao certo
Os passos de um tango
A lua e o mar testemunharam
O meu descompasso
Mas ele, pacientemente
Me ensinou a rota de cada nota.

Eu estava
Completamente rendida...
Bendito sono
No ônibus da linha cinquenta.

A minha mãe sempre me avisou:
Não caia em contos de fadas
Não acredite tanto no amor
E, eu passei a vida inteira
Com medo do lobo mau
E, eu passei a minha vida
Com medo de ser
Uma pessoa normal.

Eu não sabia que gosto tinha um beijo
Nem o gosto de um desejo
Eu estava perdida
Completamente sem direção
E, eu nunca havia provado algo
Que me tirasse do chão
Provei!

Adormeci no ônibus
Da linha cinquenta
Acordei deitada nos braços
De um estranho da noite
E me descobri mulher
Sem pudor
E sem culpas.

Escolhi um estranho no bar
Deixei ele me amar
Acordei
Lavei o meu corpo
Daquele perfume
E me despedi de todo pudor.

Acertei o passo
Encontrei o ponto
Peguei o ônibus
Da linha cinquenta
E voltei
A ser eu
Mas agora,
Sendo outra.


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