10 MULHERES VESTIDAS DE POESIA


VETRUVIANO PARA “VENTRE DE OSTRA”
NASSARY LEE BAHAR

Eu pari, de um só golpe, um poema.
Era fino, fugia feroz de mim, franzino.
Mas já tinha dentes.
Não queria ser lido por ninguém.
Mas queria ganhar corpo.
Vivia essa contradição itinerante.
Queria nascer apenas.
Respirar lhe era suficiente.
Foi quando abriu braços e pernas.
Como uma estrela girante.
E, gigante, vetruviou.
Não se desviou.
Sabia ter recém-liberdade.
Da rota, era preciso.
Mas era roto.
Não se segurava, uma vez parido.
Como pérola, procurava outras contas.
Pra fazer calar, calor e colar na união dos versos.
Que poema solitário é coisa dos perversos.
De conta em conta, uma reconstrução
pelos retrovisores da vida.
Vetruviou.
Era roto, vazava por tudo, era vitro.
Como ostra, que vive em conchas ou ventres do mar;
sabia que não podia ser vedado, sem ser rasgado como roupa.
Como pérola, já nascia imaculado.
Não precisava ser polido.
Era poema parido.
Ganhava corpo.


DOSANDO A SAUDADE
ELIETE MARRY

Amo-te à distância
No silêncio do meu coração
Amo-te em doses de leveza
E em doses de vulcão
Ao me explodir de desejos
Surge a calmaria
De teus suaves beijos
Tranquilizas meus instintos
Afagando-os de carinhos
Mas se me queimam
as chamas da saudade
Bebo doses paz
Inalo teu cheiro
doce lembrança
Que logo me invade
E ali me embriago
Amo-te em silêncio
E de dose em dose
Venço a ânsia
De amar-te à distância!


LEMBRETE
RUTH CASSAB BRÓLIO

Sempre derramo a taça
vinho tinto no vestido
de lembrete
no dia seguinte
a ressaca
a nódoa do seu colarinho
e um leve desalinho
no canto
de nosso sorriso.


SOBRE CHEIROS E DESPEDIDAS
DÉBORA MITRANO

Há um cheiro de doença e despedida,
no fio dos meus cabelos.

Eles caem no ralo em fios grandes,
unidos uns aos outros
Há um cheiro de perfume velho no meu peito
e minhas terminações nervosas sofrem.

A floresta de uma só árvore significa minha solidão.
Os frutos caindo no chão é a dificuldade em chegar até mim.
A doença não me define.

As clínicas psiquiátricas servem para transformar pessoas em ratos de laboratório.

Meus cabelos não param de cair.
As despedidas nunca são anunciadas,
mas algumas são sentidas secretamente
no momento em que se são despedidas.
Gosto de escutar American Football
antes de dormir.
Never Meant.

4:28 de nostalgia.
Os remédios as vezes ajudam,
mas os pensamentos psicóticos continuam.
Bebo cerveja sem álcool para entrar na realidade.
O que é poesia?.
Senão a arte de esquecer.
Há um cheiro de despedida na minha casa,
ela fede a desilusão.

Um cheiro de despedida nos meus cabelos,
em que tua mão afagou.
Um cheiro de enfermidade nos meus vestidos.
Doença e despedida:
dois segmentos da mesma medida.


MEIAS ENCARDIDAS
HELEN PRIEDOLS
ah! essas meias encardidas
das crianças felizes!
depois de um dia de proezas
artes e brincadeiras
a empresa de uma mãe 
é limpar toda a sujeira
entre tanque e lata de lixo
a dúvida se dependura
lavar ou jogar fora?
que loucura pensa ela
esfregar um par de trapos
até chegar à brancura
mas as mães são persistentes
não se abatem facilmente
esfregam sabão, escovam
usam limão, água quente
as meias ficam meio limpas
e puídas, quase transparentes
passa o tempo, filhos crescem
e cuidam das próprias meias
mas no dia das crianças
o clima é de nostalgia
bagatelas esquecidas
voltam então à lembrança
o olhar mareia de saudade
daquelas meias encardidas.


FÉ POÉTICO
FLÁ PEREZ

Chega da poesia de proveta,
pinaco-bibliotesca,
de sinônimos e antônimos
riscados nos dicionários.

Farta da poesia com muitos olhos
sem nenhum cheiro e nenhum sonho,

peço a que nunca espera ser possuída
e vai de encontro.

A concebida sem consciência do pecado
nua em pelo,
no mais completo abandono.

Quero os versos recitados entre as pernas,
escritos no travesseiro.

Quero a poesia que me morde a boca,
e o poema que me vem
inteiro.


ÍGNEA
ADÉLIA COSTA

E agora o que faço?
com teu gosto em mim? Impregnado e espalhado
nas paredes dos jardins.

Presença etérea...
Cheiro, suor, sussurros
Molhando os jasmins
Que não foram levados
Com o gélido partir

Deixastes centelha
Lembranças que incendeiam vejo teu corpo em mim...

Em magma transbordo,
Sou ígnea,
Prometeu do devir


ERILVA LEITE

Suavemente voltas
como a brisa gelada da noite
em espasmos de amor entre o mar e a lua
como verso e rima
semente e flor
és meu poema mais vivo e terno
chamado AMOR!


REMENDO
LILLY ARAÚJO
Eu me pinto,
mesmo me sentindo
em "preto e branco".
Eu sorrio,
mesmo com lágrimas
entaladas em forma de
"nó na garganta".
Eu distribuo abraços,
mesmo quando tudo
que eu precise seja um
braço para eu me apoiar.
Eu me levanto rasgada,
e me lembro
que é só me remendar.
APENAS ISSO
MARISA SCHMIDT

A morte chega um dia
de velhice, de doença
de acidente, indiferença
de tédio ou melancolia
E com ela não há acordo,
carteirada ou padrinho
que apresente um jeitinho
de graça ou cheque gordo
Para uns será o descanso
se num descuido de atenção
falhando um toque do coração
vai-se em assustado remanso
Para outros, estranha ocorrência
ou mesmo um vulgar fatalismo
onde por capricho do destino
nos falta a sorte ou a ciência
Mas a morte, por certa e sabida
é só mais uma parte da vida
que encerra em si derradeira lição:
Tudo no mundo é frágil e passageiro
e quem se vai leva completo e inteiro
o amor que plantou em outro coração...


2 comentários:

  1. Imensamente feliz, agradeço a honra de estar aqui. Grata, querido !

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