ÚLTIMO DESEJO

Um texto de GABRIELA CÂNDIDO

São raros os amores que permanecem intactos com as úlceras do tempo. São raros os amantes que ao passar dos anos não pensam em abandonar o barco e se deixar submergir.
Conheci amigos que namoraram por anos, e num dia, sem mais nem menos, acabaram. Como assim? E o amor? E os filhos que ainda não nasceram? A casa na praia? O chalé em Martins? E os sonhos que ficaram pendentes para nunca mais se realizar?
É fato, indiscutível, indubitável, que não importa o quão bom você seja, quantos cafés da manhã tenha preparado e levado à cama, quantas flores tenha comprado e quantos “eu te amo” você tenha dito; a pessoa que você ama pode um dia acordar e já não mais sentir o mesmo.
O tempo que faz surgir o amor é o mesmo que faz finar-se o sentimento. E nós, tolos, como os apaixonados que em meio ao ato tampam a boca para o desejo não escapar do corpo, tampamos o grito e seguramos o fim. Um nó na garganta, tampado com a mão, segurando o desejo de dizer que acabou.

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