SETE POEMAS

Da poeta CLAUDIA MANZOLILLO - Nascida no Rio de Janeiro, licenciada em Letras (Português-Literaturas) e mestra em Literatura Brasileira pela UFRJ, com dissertação sobre a obra de Lygia Fagundes Telles.
Professora de Língua e Literatura do magistério estadual e federal, revisora de textos. Escreve contos curtos e poemas.
Publicou A dona das palavras (Editora Penalux, 2015), que recebeu o Prêmio Humberto de Campos, no Concurso Internacional de Literatura, promovido pela UBE-RJ em 2016, na categoria contos.
Participa das seguintes antologias poéticas: Blasfêmeas: mulheres de palavra, 2016, Editora Casa Verde; Terça ConVerso, 2016, Editora Ventura; Crocevia di versi, edição bilíngue italiano-português, 2016, Editora AvantGarde.
Premiada no Concurso Lila Ripoll de Poesia, promovido pela Assembleia Legislativa de Porto Alegre, em 2017.

RELEITURA

Naquele vazio
Havia plenitude
Nada de raso
Ou plano

Havia
O mergulho
O denso
O não dizer
A dizer tanto
Ágrafo
Afásico
Alfa

Edição prínceps
Merecia
Uma releitura
Ressignificada
Além
Do verbo
No posfácio.


LEGADO

Andava com o passado
Nas costas
Como uma tartaruga
Com seu casco
Pesado.
Decidiu desistir
Do peso
Andava com o presente
Uma caixa
De surpresas.


MOSAICO

Essa
não reconhece a outra
parte de si mesma
no espelho.

Tela vítrea a recolheu
e petrificou
o ser que ali habita.

Em nada
encontra ressonância
com aquela em que se mira.

Onde anda a alma
que transbordava em risos?

Escondeu-se na caixa de Pandora?
Mimetizou-se numa pedra ou vegetal?
Ancorou num porto errado?
Esqueceu o caminho de volta?

Dispersa fez-se mosaico:
encontra-se em cada eco
ressoa na voz de Perséfone
em cada estação de fugas.


NEBLINA

Esse ar úmido
tece-me
profundidades.

Desfaço
a névoa
a bruma
o orvalho.

Mergulho
no estio
tépida estação
em mim.


LILASES

Os lilases
me enternecem,
mistura
impressionista
esses lilases.

Flores de lis
Lis Lis...
Os lilases
me levam
a janelas
e jardineiras
longe daqui.

Estranhos lilases
que não encontro
aqui.
Ali só ali.
Lis Lis...

Os lilases
estão lá
lá longe.

Os lilases
lá...ali
les lilas.


Os lilases
me dão saudades
de um lá
aonde nunca fui.

Um buquê de lilás
perfume
de al di là.


DISFARCE

Exilada de mim
me acho no sorriso
pendurado no cabide
pronto para vestir
minha boca e sair
por aí.

Ai de mim
sem esses comigos
sem os saraus
interiores
interlúdios
na sala íntima
do ser.


MULHER EM DECOMPOSIÇÃO

escalo-me do fundo ao fundo
do pé inexistente à cabeça
mais que enfeite sustento-me
músculos carne volutas
arestas compuseram
a figura erigida aérea

pareço em decomposição?
sou toda eu que me faço
do ângulo que me queira
me construo no tempo
à minha maneira
dos pés brotantes
à cabeça inteira
  

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