OLARIA

Um poema da poeta natalense ADÉLIA COSTA

Imagem • Arte de Avelino Pinheiro

De que adianta a beleza dos versos,
Se tu não fores a poesia?

Não quero mais a poesia vã,
Que insiste em falar asneiras,
Que não sabe o que fala
E pensa certeira...

Meia dúzia de palavras que rimam
Aqui e acolá...
E se dizem beleza,
Imagens ilusórias,
Do nada com nada
De coisa alguma!

E se veem belezura...
Ardendo sem partitura:
Mais e mais ardidura!

Não quero ser ludibriada,
Na beira de qualquer estrada...
Achando que algo sou.
Não sou nada!
Longe de ti, nada sou.

Pobre e miserável alma humana:
Na mentira se engana...
Correndo lado para outro,
Escondendo-se na beleza dos versos,
Prazer fútil de um falso coito!

Que eu esqueça!

À noite, que eu possa dizer:
Sim, não quero deixar de ser pó!

De dia, que eu diga:
Me molda, sim, sem dó!

Apenas se tu não me deixares,
E me retirares as ilusões caducas,
Ridículas, vazias e malucas,
Que nas palavras poetas permutam,
Poderei ser alguma coisa...
  
Que seja tu a minha Poesia,
Aurora da minha vida!
Que me cubram as tuas Trovas,
Metáforas, partituras, figuras,
Para que assim a vida
Não me seja dura!

E, como fenômeno de outro mundo,
Sejas meu rio:
Forte armadura!
Meu verso perfeito, altura!
A mais bela figura!
Olaria profunda:
Presença que é poesia
Me amanhecendo...
Dia pós dia!


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