MUNDO PEQUENO

Um poema do Poeta cuiabano MANOEL DE BARROS


IV

Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos de
um mar extinto. Caminha sobre as conchas dos
caracoes da terra. Certa vez encontrou uma voz sem
boca. Era uma voz pequena e azul. Não tinha boca
mesmo. “Sonora voz de uma concha”, ele disse.
Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: “Aromas de tomilhos
dementam cigarras”. Conversava em Guató, em
Português, e em Pássaro.
Me disse em língua-pássaro: “Anhumas premunem
mulheres grávidas, três dias antes do inturgescer”.
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
“Borboletas de franjas amarelas são fascinadas por
dejectos”. Foi sempre um ente abençoado a garças.
Nascera engrandecido de nadezas.


– Manoel de Barros, do livro “O livro das ignorãças” (1993), em ‘Poesia completa: Manoel de Barros’. São Paulo: Editora Leya, 2010.

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