MINHA CANETA MANCA DO BICO

Um poema de RADYR GONÇALVES ilustrado pelo artista FLAMARION TREVISAN
Imagem • " O FINGIDOR" Ilustração do artista Flamarion Trevisan

Minha caneta manca do bico
Eu não sou pobre, eu não sou rico
Não sou forte, nem fraco
Eu simplesmente nada sou...

Não há sincronia da minha vida com a poesia
A coisa alheia é sempre tão perfeita
As roupas, os azulejos, o modo de falar

Minha história é estreita – eu não tenho onde morar
Desafino quando canto
Quando choro, quando planto
Sempre é sertão e nunca chove

Tudo me comove – mas finjo o frio da humanidade comum
Finjo a dureza dos olhos de pedras dos homens
Finjo ser uma esfinge para me passar por alguém importante
Finjo ser o que não sou, mas não consigo

Minha história é vazia – eu rezo uma ave Maria
Quando acordo meio-dia
E todas as noites quando não durmo massageio o bico da minha caneta
Manca
Mouca
Quase morta

É outra que vive a fingir... Exibe sua tinta azul, toda esnobe, dizendo ser tinta nobre...
Mas é tinta tão comum...

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