A VERVE INSTIGANTE DE SEIRABEIRA

Três poemas da Poeta brasiliense SEIRABEIRA

A HORA DA MORTE

A hora da morte do outro é dele apenas
como foi sua própria vida.
E temos de respeitar
porque nada sabemos
desse mister ainda.
A nossa fica à espera em outro intervalo.
E, lá, no derradeiro sopro,
no movimento cessado,
talvez, iremos confirmar ou não
se um filme inteiro
pela nossa cabeça  passa,
se nosso avô vem de outro plano
para nos dar mão;
saber a cor dos olhos de Deus
e se realmente há um deus.
Mesmo que essa partida solitária,
intransferível, altamente personalíssima,
abra – naqueles que nos amam – feridas
é preciso aceitar que ela parta:
a morte é o último ato íntimo da vida.



DE PAPEL AMASSADO

Sou tua
de papel amassado
e declarações de rimas.
És meu
sem testemunha outra,
a não ser o cheiro da tua roupa
ter ido às raias e às núpcias
com minha poesia.


DOM PIXOTE

Se caixa de fósforo
ou caixote,
a poesia não repara.
Ali sobe e fala
o engraxate da palavra -
esse poeta meio vento,
moinho e roncinante -Quixote;
atrás das grades, de pó sem lua,
marginal – Pixote.

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