A VERVE DE ÉRICA CRISTIANE

A poética intimista da Poeta paranaense ÉRICA CRISTIANE

NOTÍVAGA

eu
que sou feita de ventos e folhas caídas
trago a noite tão próxima de minha alma
que meus olhos semicerrados
nem sabem mais enxergar a luz.
sou toda
cortinas fechadas e caos
antes que a noite toda me engolisse
eu mesma a engoli
em uma mordida só.


ANTROPOFAGIA

Centímetro por centímetro
degustas.
consomes lentamente,
com todos os teus quatro sentidos,
minha pele esbranquiçada
e meus pelos eriçados.

Correm os teus dedos por toda que sou,
tuas mãos me decoram
numa escuridão que eu não percebo.
prova meus poros
intempestivamente.

E já que tua língua te revelou
minha alma, minha matéria e o resto que teus olhos não veem.
e já que arrancaste
pedaços do meu corpo,
e preparaste a carne
com teu enigma de esfinge,
agora devora-me
matando tua fome.

Começando pelos pés.


SOBRE POEIRAS E SOLIDÕES

todas as palavras não ditas,
adormecidas com os anos,
tocaram o céu da boca e a ponta dos dedos
saboreadas e mastigadas
voltaram amargas para o estômago
em forma de úlcera verborrágica.
- Não me permito um vômito a mais.
e confiro a fechadura pela décima vez
e mais duas
essa minha mania de esquecer aberta a porta desse meu minúsculo apartamento
mesmo depois de uma década
ainda vai desempoeirar até minhas tardes de domingo
e me fazer envelhecer


de solidão reengolida.

Um comentário:

  1. A poesia torna-se maior e nais sentida, quando o poeta deixa o corpo físico para vestir um um corpo de luz e nuvens.

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