A POÉTICA DE ELKE LUBITZ

Sete poemas da poeta catarinense ELKE LUBITZ

VIAS

São tantas as vias na mão da poesia
São tantos infinitos na mão do tempo
Sou tantos verbos presos no peito
Sou tantos infinitos e não me alcanço
São tantos barcos em mares errantes
Sou meu desgosto a coalhar meu rosto
Sou toda lonjura a quebrar encantos
São tantos gritos que movem o mundo
São eternidades que o tempo entoa
São filhos do tempo os horizontes alados
São braços e asas nas dobras do céu
Sou flâmula branca , pedido de paz
Sou ave solta...me deixem cantar .


OCASO

O arame farpado do horizonte
fere o ocaso e a tarde no relógio
lamenta
Ponteiros são raios de sol e noites enluaradas
- O relógio é minha rua
- O relógio é a calçada
O mar tem lâminas de fogo, hoje !
É a transgressão da ordem dos dias
labaredas famintas no crepúsculo ardem
E o sangue dos feridos corta esperanças.
Tinge de luz o cavaleiro alado
Que vi aparecer com seu manto dourado
E senti um arrepio de morte
E senti uma angústia tonta
Tudo ao redor é mais vivo que o sol
O mundo que inventamos não é o muro que atravessamos
É o alcance do sonho ferido, é acreditar no que foi outrora esquecido
Vi o mundo azulado pairando como nuvem
Vi os ponteiros dizendo que já é hora
Vi a vida passeando lá fora
Vi as noites aquecidas nas esquinas das estrelas.


METADE É MAR

Navego
neste barco com escamas
Há perigo nestes olhos
de tantas proas
Na cauda dessa onda
meu sacrifício é rede
Mar alto de alumbramento
multiplicadas embarcações
Para um só peixe
aprender a nadar.


PENUMBRA

Cristal de orvalho
Adorno no olhar
É brisa que farfalha
Na cambraia
Do luar
Pétalas, tuas faces
Varandas em teu corpo
Nuvens, as penumbras
Meia lua
Diamantes dos
teus olhos
E este céu, contorno azul
De asas insanas que explodem
Poesia.


NAQUELE RIO

Bebi da água daquele rio, lugar da felicidade,
Bebi o céu
Bebi o azul
*
E os sons de todo aquele céu
Bebi da chuva naquele rio
Bebi as nuvens
Os infinitos
As auroras
*
Bebi o por do sol
Naquele rio,
Bebi a sede
A saudade
*
Bebi os estrelas naquele rio
Bebi as luas
Os labirintos
As tristezas
*
Bebi esperanças, bebi o arco íris
A liberdade
Os infinitos
E os universos todos eu bebi, ali.


ESFERAS CÓSMICAS
(múltiplas vozes)

Que cometas nascem entre teus cabelos e
explodem nervuras de sóis na curvatura do tempo ?
Sobem as escadarias, dormem em sono hemisférico e triste
Depois, os vidros embaçados dos livros que espelhos ferem
*
Consagram teus pontos finais, com luas e luas azuis
Vírgulas e reticências eu vi nos teus olhos de capa incerta
Planos abstratos e panos cósmicos, astros silentes
Pontes da palavra acerto com as setas e o caminho some
*
Através do cometa singras oceanos nos barcos dos sonhos
E cantas sete céus, cantas elegias e sonhas crepúsculos acesos
Em dias de infinitas odes, canções de ninar, e dormes
*
Poderias ver os portais abertos e discos de esferas
A luz em ondas se perde no espaço e dormes...
Os planetas giram em torno da tua retina, e dormes.


ACIMA DO VENTO

Chove :
Aspersão
de
Estrelas.


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