UM TEXTO DE PAULO ALVES DE SOUZA

NATAL – TERRA DA PROMISSÃO - 
Créditos da imagem • Ricardo Morais
                                
Eu vivo em uma cidade onde o povo é quase povo,
       a espera de um delirante despertar.
Onde o alicerce é o lixo, esse lixo, que gesta crianças desiguais,
       onde todos são iguais, alguns bem mais iguais.
terra onde não brota leite e mel, brotam arranha céus,
      condomínios fechados empurrando a plebe para cortiços e favelas.
Nessa terra onde os metrôs não transportam a “massa”,
       são depósitos de indigentes que não se aturdem nesse equivoco;
terra do carnaval de cada um, rei descalço,
        coroado de paetês e brilho fácil.

Eu sou filho dessa terra que diziam que Deus morava ao lado,
       mas, Ele sabia que não sou um deus, e que sou fraco.
Sou filho dessa terra onde se ora pelos opressores, porque Deus determinou,
       e nosso rosto terá marcas na face, à espera das belezas e lírios do Senhor.
Sou filho dessa terra onde pobre não usam filtro solar
       e o sol das 07:00h às 15:00h não provoca câncer em pobre.
Sou filho dessa terra do salário mínimo que faz milagres:
       compra comida, casa, roupa lavada, e sobra uma fezinha.
Sou filho dessa terra onde gatunos não pagam impostos
       e vivem em torres de ametistas.

Sufoco, tenho taquicardia, nessa terra que fala: “I love you”,
       e não ama ninguém, só com hora marcada.
Onde cachorro tem certidão de idade, preconceito não tem cor
       e dinheiro é imunidade.
Sou dessa terra onde a cultura proletária vai ao ar às 05:00h da manhã,
       quando cochilo e políticos “bostejam” em horário nobre.
Nessa terra onde a bússola aponta o norte mentiroso,
       no mapa do medo e da morte, e a educação fica no sul do mundo.

Somos o 5º em vaidade depois de ninguém, pregados em cruz;
       em uma única vida, num só caminho, base de barro da pirâmide.
Terra de cobra-cega e roleta-russa suicida, imensurável “Gulag” social;
       onde nascem e morrem crianças em série;
tutelados dessa nossa generosa “mãe gentil”.

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