UM SHOW DE GLOSA

GLOSA de CAIRO PEREIRA • MOTE de OCIONE

A mulher malacafenta
Que dizer diz ser cabeleiraleira,
Exigente de primeira,
Diz usar a ferramenta
Igual o padre a água benta,
Mas seu bêlo é de lascar,
É um leão à beira mar
Que usa frase desmedida...
São essas coisas da vida
Que não dá pra suportar.


Fico pensando comigo
De onde vem à paciência
Pra aguentar a incompetência
De quem vê só seu umbigo,
É pior do que o inimigo
Que declara sem pensar
O incompetente no ar
Deixa um quê de rei da lida
São essas coisas da vida
Que não dá pra suportar.


Quando eu olho para o artista
Encarnado no papel
Sinto o doce do bom mel,
A belezura na pista,
Quando ele sai da revista
E começa a passear
Entre o povo pra falar
Sinto que é uma má pedida,
São essas coisas da vida
Que não dá pra suportar.


A manicure falante
Que fofoca da vizinha,
Ela diz ser a rainha,
A princesa, a debutante,
Somente ela que é elegante
No seu modo de falar,
No presente o bem estar
Da freguesa tão querida,
São essas coisas da vida
Que não dá pra suportar.


Uma velha matriqueira
Que insiste no tempo antigo
Que a saudade é seu abrigo
Para tanta baboseira,
Não serve pra conselheira,
Companhia pra alegrar,
Pois só sabe reclamar
Do que ela está acometida,
São essas coisas da vida
Que não dá suportar.


O cabra que arruma som:
Ele sim que é um verdadeiro
Bom de papo, trambiqueiro
E nisso ele tem o dom,
Adoça feito um bombom
De modo espetacular
E o cliente sem pensar
Sai roubado na medida;
São essas coisas da vida
Que não dá suportar.

  
O que perturba o juízo
É a vizinha na calçada
Que chama a outra de safada,
Mas diz assim: - Eu preciso
Do senhor que tem sorriso
E tostão para me dar,
Casado com Dagmar,
Uma gorda égua parida.
São essas coisas da vida
Que não dá pra suportar.

Glosa de CAIRO PEREIRA

Mote de OCIONE

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