SETE POETAS ♣ CALAÇA • CÉSAR • ROGÉRIO • VALDECI • GUILHERME • JOSÉ e PABLO


DIÁRIO DE UM NÁUFRAGO
BENTO CALAÇA

O mar visto da pedra onde estou
transborda pelas manhãs
de peixes e pássaros

não eram minhas as mensagens
que recebia em garrafas na praia
mas com o tempo foram sendo...
fiz verdades em garrafas de outros.

Eu, que nunca tive um Deus
com quase meio século
descubro ser o meu Deus
o mar.
Temperamental e traiçoeiro
às vezes manso como um cordeiro
dissolve-se em sal no azul do céu
enquanto gaivotas, voam penas
feito folhas.
Ateei fogo ao passado
para dormir em travesseiros de cinzas
e da ilha dos sonhos
nunca mais voltar
Engolido pelo pôr do sol.



BRANCA DE NEVE
GUILHERME DE ALMEIDA

Eu te guardo no fundo da memória,
como guardo, num livro, aquela flor
que marca a tua delicada história,
Branca de Neve, meu primeiro amor.

Amei-te... E amei-te, figurinha aluada,
porque nunca exististe e porque sei
que o sonho é tudo — e tudo mais é nada...
E és o primeiro sonho que sonhei.

Hoje ainda beijo, comovido e tonto,
a velha mão que um dia me mostrou
aquela estampa do teu lindo conto,
princesinha encantada de Perrault!

Que fui eu afinal? — Um pobre louco
que andou, na vida, procurando em vão
sua Branca de Neve que era um pouco
do sonho e um pouco de recordação...

Procurei-a. Meus olhos esperaram
vê-la passar com flores e galões,
tal qual passaste quando te levaram,
no ataúde de vidro, os sete anões.

E encontrei a Saudade: ia alva e leve
na urna do passado que, afinal,
é como o teu caixão, Branca de Neve:
é um ataúde todo de cristal.

E parecia morta: mas vivia.
Corado do meu beijo que a roçou,
despertei-a do sono em que dormia,
como o Príncipe Azul te despertou.

Sinto-me agora mais criança ainda
do que naqueles tempos em que li
a tua história mentirosa e linda;
pois quase chego a acreditar em ti.

É que o meu caso (estranha extravagância!)
é a tua história sem tirar nem pôr...
E esta velhice é uma segunda infância,
Branca de Neve, meu primeiro amor.


Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.


CHAMADO
VALDECI ALMEIDA

Mortas paisagens,
Impérios da pedra,
Vinde!
Eu as desabrocharei
Floridos campos.

Escuros céus,
Templos das sombras,
Vinde!
Eu os amanhecerei
Iluminado dia...

Corações de ódio cheios,
Almas vazias...
Vinde!
Vinde!
Vinde!
Eu os levarei à Poesia.



AUSÊNCIA
CÉSAR VENEZIANI

Nem sempre temos nós sobre o destino
poder pra decidir o rumo à frente.
Às vezes somos elo pequenino
que vai e vem seguindo uma corrente.

Os sonhos que trazemos de menino
se perdem, tomam rumo diferente.
Daí se estabelece o desatino:
nem sempre o que se faz é o que se sente!

Então fica um vazio dentro do peito
e a sensação que surge é o nada em torno.
Difícil reverter. Ah, não tem jeito!

E o pouco que nos cabe é quase zero:
da ausência irreversível me conforto,
da ausência reversível desespero...


"Neblina" (Editora Patuá, 2012)


SINFONIA DO AMOR
JOSÉ DE CASTRO

Minhas mãos tocam
As teclas do teu corpo
E pingam arrepios pianos
Delicados sonidos
De violinos que esticam
Os sentidos para além do divino
E teu corpo estremece ao som
De rouco violoncelo
E somos dueto de cordas e teclas
E tremor de taróis de veludo
E somos bemóis
E sustenidos de sol
Em clave de lua
E gemidos de estrelas
Acima de tudo
E o som desse amor
Explode na garganta
Da guitarra louca
E nas costelas da harpa rouca
Percorre em calafrio
O arco do teu corpo
Que se verga e vibra na sonata
De fagotes que singram
Afagos de fogo no
Teu lânguido corpo alongado
No êxtase de grave oboé
E na flauta transversa
Em duelo de sax, teu sexy
Sexo me envolve, me cerca,
E o teu desvario atravessa
Os limites feito grito
De trompete alucinado
E somos dois em um só transe
Por entre milhares de sons
Regidos pela tempestade
De metais em relampejos
No rumorejo de tambores
De desejos inconfessos
Dançamos a melodia dos corpos
E sopro um beijo de mel
No bocal da tua boca
E a tua língua e a minha
Afinadas em mesmo céu
Fazem sinfonia e seresta
Volúpia, tesão que se orquestra
E a festa, noite adentro, continua
Nua, nua, a minha melodia e a tua.



DESCONHECIDA
PABLO DEL MORALES

Desconhecida,
dá-me a tua tez
para que eu inaugure nela o meu cativeiro.
Quero dos teus braços
a Aurora que permanece,
enquanto eu respiro um jardim de perfumes,
que do teu cabelo exala.
Diga, adversária e companheira, qual é o meu nome
para que eu sempre me esqueça quem fui.



PRAXE
ROBERTO GERMANI

Não sou Drummond
Nem faço questão de ser;
Fui e serei
Sempre o que uma voz desabitada quis que eu fosse:
- Vai,
Esvazia-te os rumores estarrecidos da alma
E, com o brilho arrancado sonolento dos sonhos,
Ame a vida
Inunde num sorriso a réstia dos dias.

Quem
Intrinsecamente me conhece
Diz: poeta.
Aos estranhos,
O que para mim é algo muito estranho,
Em cordial força me apresento:
Só compreendo a vida
Muito ou pouco
Se delírio for mais que lume
Se viver for única poesia completa.



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