SETE POEMAS ERÓTICOS ♣ 1ª EDIÇÃO


DEMORA-TE SOBRE A MINHA HORA

Que tu me percorras cuidadosa, etérea
Que eu te conheça lícita, terrena

Duas fortes mulheres
Na sua dura hora.

Que me tomes sem pena
Mas voluptuosa, eterna
Como as fêmeas da Terra.

E a ti, te conhecendo
Que eu me faça carne
E posse
Como fazem os homens.


HILDA HILST

Da morte. Odes mínimas. (1980)


A ARTE DO PRAZER

Sou desenho rupestre
Em teu corpo nu
Pinto o sete!


ELIETE MARRY


ÚMIDA SAUDADE


Chove lá fora
E cá dentro
tempestade
Úmida saudade
No fim de
tarde chuvosa
Saudades de tudo
que não vivemos
Dos teus beijos
percorrendo
meu corpo nu
Do calor do
teu corpo
me incendiando
E do olhar
que me devora
lentamente
Saudade do sorriso
de tua boca
Que a minha busca
Saudade dos corpos
encaixados
E do sexo atrevido
Ah, vontades
delirantes
Você está em
mim à todo
instante
Você é riso
Sorrindo a alma
Você é chuva
que me molha
A poesia
que me salva
É verso dividido
E amor correspondido


MARIA LÍGIA CAVIGLIONI


FAZER AMOR OUVINDO MÚSICA FRANCESA

Ouvindo música francesa...
Roço meu queixo na flor dos teus seios,
Caricio a rosa,
Olhando pelas venezianas estrelas curiosas,

Ne me quitte pas!

Laceio meus lábios nos teus,
Domo tua boca,
Teus olhos de lua,

Na parede a silhueta dos nossos corpos,
Bailando simétricos,
Num quarto excêntrico,
Forrado de pétalas e sobras de sol,

Amarro minhas pernas nas tuas,
Alcanço o rio, lanço a rede,
Tenho fome, ânsia, sede,
De jorrar fogo na tua fonte iluminada,

É alta madrugada...

Teus gemidos vão acordando o dia,
Que espia rosado, nossos corpos molhados,
Ilhados por um prazer intransponível...

...Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Ne me quitte pas.


RADYR GONÇALVES



A LÍNGUA LAMBE

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


CASCA

o tempo da delicadeza se dissipa feito a espuma
que se forma na crista da taça de vinho corrente

insiste no gozo sereno, nas bolhas que explodem
entre o tato da janela aberta e seu cálice-ventre

na carne que habito, sutileza é puro impropério

há finas fagulhas que se desprendem do inferno
e pairam em meus poros e esperam pelo sangue
na linha tênue da pele que se afunda em cordas

o meu corpo se debate sob gritos escorchados,
refém de estalos intrínsecos e manias sórdidas

e nós gozamos sob o cheiro de atrito do couro,
sob o sangue que irrompe, sob velas queimadas

: pelo prazer das nossas camadas descascadas.


AMANDA VITAL


PARTICULARIDADES

Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,
os meus gostos crimino e busco, em vão, torcê-los;
é incrível a paixão que me absorve por tudo
quanto é sedoso, suave ao tato: a coma… os pelos…
Amo as noites de luar porque são de veludo,
delicio-me quando, acaso, sinto, pelos
meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo
em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.
Pela fria estação, que aos mais seres eriça,
andam-me pelo corpo espasmos repetidos,
às luvas de camurça, aos boás, à pelica…
O meu tato se estende a todos os sentidos;
sou toda languidez, sonolência, preguiça,
se me quedo a fitar tapetes estendidos.


GILKA MACHADO




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