Sete poemas do moçambicano Sanjo Muchanga


Poema em Apuro

Por puro medo de escrever
Escrevi um poema em apuro
Soprei a preste de poetar
No dançar do ritmo de mapico
No bico da curuja poética.

Por puro medo de ler
Li tantos escritos nos muros
Lá do outro lado onde morro
Com os livros sagrados
Que me tira o sossego de ser eu.

Por puro medo de gritar
Gritei silenciosamente a dor
Do prazer concebido pela leitura
Desta criatura do Paulo Lins
Que embriaga as flores de lis.

Por puro medo de morrer
Morri de amor por ti sinha
Que sina o seu gingar pirilampo
No quebra tempo do luar
Pronto para fornicar a viado.

Por puro medo de errar
Errei tentando escrever poema
Que não ferisse a alma
E feri escrevendo isto
Que nem poema é!


Templo Divino

O homem é uma igreja
Que desperta a inveja
A si mesmo como cerveja
Vejo-o sempre na almeija

Dum bom baril do vinho
Sem ter sequer um ninho
Onde escutará o passarinho
Na gaiola do seu cestinho

Oh vida incredula
Que pendura a medula
Desta criatura na janela
Feito uma estrela

Quem me dera ser Judeus
Ter visto Cristo ou Deus
Para contar aos meus
O que fez com os Hebreus.


Poema Frio

Este poema frio
Que geme de calafrio
Escrevi escutando
Os teus delírios.

Esta poesia lirica
Já está fora de moda
Porque já na ecomoda
Aos puristas e juristas.


Regra Para Contar Isto!

Estava tão apaixonada
E não tinha coragem
Escrevi uma carta de amor
Não sei se era ridícula
Mas sei que escrevi
Ela leu e sorriu
Se aproximou e me envergonhei
Quando escrevi a minha carta de amor
Não estava o Mia Couto
E nem me orientava o Fernando Pessoa
Apena eu e meu medo
Estavamos sentados na rua
A imaginarmos as coisas todas nuas
E ela nos tirou o sossego
E nos apaixonamos
Agora estou triste e sozinho
Já não tenho medo
E ela se foi como todo amor
E as minhas cartas de amor
Ficaram esquecidas
Quando leio os poemas dos outros.



PRONTO FALEI


Aqui sempre nos tiram tudo
Tiram-nos o sossego
Se viajarmos livres
Tiram-os o pão de cada dia
Tiram-nos o salário
Tiram-nos o sonho
De um dia sermos nós
Tiram-nos riquezas
E nos deixam doenças
Tiram-nos areia e madeira
E nos trazem lixo
Tiram-nos justiça
E nos devolvem ladrões
Sempre nos tiram
E nunca nos dão nada.
Aqui temos energia
Para alimentarmos a hipocrisia
Temos gás para queimarmos
As palmeiras
Temos florestas
Para importarmos madeiras
Mas não temos carteiras nas escolas
Temos escolas
Mas não temos professores
Temos polícias
Mas não temos proteção
Temos hospitais
Mas não temos enfermeiros
Não temos muitos cemitérios
Mas temos muitas mortes
Em fim promovemos
Sempre isto que não é nada
Porque não somos nada
Nem somos povo
Nem somos nação
Ora nem somos um país
Porque não temos justiça
Não temos lei para todos
Não temos prisão para políticos
Somos uma nação na estação
De ser reconhecido nação.

Eles partiram

Os meus amigos partiram para o além
Eles partiram sem ter combatido
A velhice e as doidices deste tempo
Tempo de luxo e miseria pscologica.

Eles se foram sem dizer adeus
Na surdina duma buzina, se foram
Ontem fomos o que fomos
E hoje resta-me o que não sou

Lágrimas de lembraças caem
Neste apócalipso do frio de julho
E me fere o orgulho no olhar
Do tempo que nunca mais terei.

As fotografias do silêncio são martírios
Dos vossos delírios na hora de partir
Para esta parte incerta da vida
Que permanece em mim como um conto.

Quanta saudade meus amigos e irmãos
De longos caminhos de batalhas infantis
Nesta subtil lembrança que me acertou
Justamente hoje que estava quieto.


Vento Violento

As vezes o vento violento
Nos tempera o pensamento
Destroi as nossas cabanas
E nos deixa eternos sacanas!


Sanjo Muchanga

Sanjo Muchanga, nascido ao 4 de Março de 1986, em Moçambique, província de Maputo, residente na Cidade de Maputo,  Bacharel em Teologia Livre, Administracao de Recursos Humanos, Gastronomia Basica, Directo Administrativo, Literatura e Cinema pela Embaixada de Brasil em Moçambique. Participações em Antologias da Solar de Poetas, ALPAS, Entre o Fado e Samba II e Abrigo da Poesia, Colectânea Horizonte, Leveza da Alma, Som de Poetas, Antologia Fénix e Poetizar o Mundo, Revistas Literárias Trupe Reticencias em Versos, Folhinha Poética e Entrementes. Distinguido duas vezes pela Solar de Poetas e reconhecido pelo mérito pela Solar dos Poetas, Certificado pela Sociedade Mundial de Poetas pela participação na colectânea Leveza da Alma e pela Academia Virtual de Letras, Artes e Cultura, como Comendador da Embaixada da Poesia. Membro e criador do Movimento Literário Ensaísta Kamubukuane. Leitor da Associação de Escritores Moçambicano, Membro da Sociedade de Direitos de Autores – SOMAS, Membro da Associação Dante AD (Italiana) de Maputo, Membro do Centro Cultural Franco Moçambicano e Membro Honórario da Academia Virtual de Letras-AVL, autor do Livro de poesia 47 Poemas e Um Poeta, vencedor em 1º lugar do prémio de conto LasVegas Master, vencedor em 3º lugar do prémio Casa da Cultura Brasil-Portugal.



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