SETE POEMAS DE YZZY DANIEL MYERS


Um olhar do horizonte

Sinto, como sente um rio
Nas margens entulho
No fundo incertezas
No sol seu rumo

Como ver umas bolhas
Que das profundezas
Emergem, o fisgar da isca
Do pescador, a prece
E a fumaça de uma queimada
Para lembrar que nem tudo é verde

Sinto uma enorme solidão
Ao pisar no chão, correr
Dar a mão, e mesmo assim
Ter a testa suada por falta
Da toalha de alguém que deveria
Fazer-me sombra

Sinto como o rio de duas meninas
Uma banhada na bica, a outra
Esfregando o vestido de chita
Pela agua que o coração encarde.

  
Coração de Vagabundo

Quem sobe no vento é sombra
Quem assombra minha mãe; morreu
Se Deus é criança; Manca
Cuidando dos meus e o teus

Um dia eu perco a vida
Cuspindo em quem vier
Olhar para o meu umbigo
Cantar aquela mulher

Canalha é nome de rico
Malandro safado é
Esperto demais arrisca
Quem pisa na bola é pé

Abri a minha janela
Doidinho olhando em vão
Caneca de pinga velha
Num gole um coração

  
Das despedidas do Demônio

Sou um monstro devorador de almas

Comendo as pessoas em meu caminho

Elas se vão parecendo corpo

Vazias, amarguradas sem ninho


Sou uma pedra esmagando um gato

Que o deixa sangrar e se contorcer

Carne podre que emerge

Pedra suja que se vê


ando com as pernas alheias

Dentro, fora, em cima , em baixo

Pulso com vários corações

Sou dois goles e um trago


Não sei o que vou ser

De quem vou depender

Só sei que quando se vão

Parte e mim se dói

A outra parte não crê


Todos acabam me tendo

Pedacinho cortado e moído

E me levam em pedaços

Depois sozinho na noite

Tudo se vai, nunca mais abraços


Fulminado pela fé

Aqueles cujos cadáveres já estão rígidos
E transbordam os rios que saem dos olhos já correndo para o mar
Avista as raparigas que das ruas ganham o amamento
E baratas pelos rostos ao mínimo cochilo

Os mutilados que carecem de uma sombra
Cujas feridas estão abertas em consagração
Senhores esqueléticos cheios de veias
E porcos aos gritos na lamina de um facão

Não me olhem nem me chamem
Criaturas ambulantes fulminadas pela fé
Eu sei que a palavra não tem cor
Tampouco o cheiro bom do hálito fresco

A menina que cai, desagua
Parte a espinha e cola-se no chão
E a visão que vem de cima
Além da dor das feridas
É uma mistura única
De pólvora, tiro e crença
E as trombetas de um sermão.

  
Avenida das Saudades

Tomou a concha e abriu o céu
Viu a folha que desce em câmera lenta ao ar
A flor da natureza, são velhas sortes
E o que fala aos ouvidos não mais o mar
Nas gavetas campestres o pouso é a morte
Pedras de calcário modeladas pelo tempo,
-E o vento? -
Este passeia bate no corpo, esfria o osso
E o campo se incendeia com a chegada dos restos
Quem mora aqui não é estrangeiro
Clausula de inquilino vitalícia
Na despedida se assina em credo
Não tem desejo mais solene
Nos festejos da penumbra
Que tire o fato
Do teu descanso
Ser uma Tumba.

Versos ao meu diabo particular

Acordei e não amassei o pão
O leite vem dos seios de minha riqueza
Servidão que não me deixa rezar,
Vogo o ouro da sangria em proposta

com linda princesa em meu terreiro
Discreta a servir-me trocado e fama,
Brinde e namoro pra quem se ufana
Ventre adorado num divinal lampejo

Na cruz; figura que tão me assombra
Às claras; tumba do vão carneiro
Nas sombras; castiçal de desejos

Plantio do mal em realejo,
Diabo de carne e polpa
Outorgado a ciscar no meu chiqueiro

Receita Lunar

Só há poeira de lua na tua rua
E os galhos são de asfalto
Na trilha da tua alma vi cupins
Nos teus ossos de rapadura, osteoporose
nos odores de teu suor, alecrim
E nas brasas dos teus olhos, fumaça

Essa mordida não me abala
Todos os bichos saindo da goiaba
O que é maduro se estraga

Mas pra quem te viu dissolver
Porção de bigato no prato e gourmet
Palitos de dente e limão em mãos
Hálito de alho, dois pratos e um sermão

No domingo que antecede o escárnio
A boca do lixo na boca suja do ralo
O que contradigo reflito, existe!!!
Não há banquete exagerado
Ao ponto de incharmos

que não nos deixe tristes.


YZZY DANIEL MYERS 



Conheça mais de YZZY DANIEL MYERS

Yzzy Daniel Myers nasceu em rio tinto, pequena cidade do estado da Paraíba, mudou-se para campinas junto com seus Pais quando tinha 12 anos de idade, desde de cedo sempre foi apaixonado por artes, cinema, música, principalmente literatura
Influenciado pelos mestres como Edgar Alan, Poe, Hp Lovecraft, Bocage, Quintana, augusto dos anjos, Rubem Alves entre outros tantos, desenvolveu um estilo de escrita pessimista, beirando o surreal, sombrio e sobrenatural, mas sem deixar de lado o terno e o belo, a suavidade das coisas também. Geralmente escreve poemas, contos e crônicas. Tem   textos publicados na antologia de escritores “Bar do escritor volume 2” e lançou um livro de poemas, contos e crônicas, voltado para o sombrio, “ O lado alvo da sombra” onde ainda se encontra a venda pela internet. Atualmente trabalha como educador, musico e continua seus estudos na área de letras. Sempre produzindo contos, crônicas ou poesia no momento foca em algo novo, está escrevendo um romance voltado para a Literatura fantástica.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Parabéns meu amor <3
    Isso é só o começo de muita coisa que ainda está por vir....

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