SETE POEMAS DE RADYR GONÇALVES


Descortinando o sábado

Sábado – o calendário massageia o peitoral do tempo
Cardíaco, afobado, cheio de informações inúteis

A cosmogonia na visão dos papagaios
A política na mão dos lobos
O reteté das ovelhas doentes
Passarinhos descrentes – patos dementes
O mundo gira, gira, gira
E volta para o mesmo lugar

Sábado – a couraça das eras ainda resiste
Fadigada, tecendo descansos à custa das guerras...

Mulheres descosturam o corpo
Moças embaraçam-se entre as teias da nudez

Homens desencurvam roteiros
Inventam destinos
Não encontram o parafuso ideal
A resposta para os dilemas
E choram... Choram igual criança, sem solução
Sentados no chão de uma garagem
Constroem de forma genial um foguete
Mas não sabem consertar a vida, coitados!


Mentiras, tolices e medos

Aquela força debilmente desfeita
Aquele ponto quebrado da vontade eleita
O leite derramado...

Há um fantasma residindo por entre os caibros
Mudo, vulnerável
Mas que teme em querer assombrar os moradores desse lugar

Permaneço lúcido
Mas essas teias de loucura me perseguem

Há um desespero nos meus olhos
Não me faltam verbos
Folhas, sementes, frutos

Tento fugir, mas luto
Quebrando as taças da bipolaridade astuta

Há um remendo de novela em páginas velhas
Enredos secos, tolas falas

Permaneço escrevendo
Mas nada em mim tem lógica
Minha poesia não é trágica
Meu poema não é bélico

Tento engavetar esses desabafos
Mas as gavetas vomitam esses traços

E eu sou obrigado a contar verdades
Disfarçadas de mentiras

Tolices e medos...


O homem dentro da casca

Aquele homem dentro daquela enorme casca... Como uma casca de ovo. Ébrio, chamam-no “Pau-d´água”. Preso no seu mundo frio. Acorrentado no seu mundo feio. Fora do meio, às margens. Escrevia poesias nos muros privados, lia estrelas e sabia parte do futuro na borra do café; não tinha fé em nada. Subia e descia a escada do tempo procurando divisas, curvas... Nunca encontrou um norte. Aficionado por Kafka, amante das harpas, adulador das brisas, colecionador de silêncios. Guardava seus monstros. Estudava os signos da própria ignorância. Soube se perder no próprio labirinto de apotegmas.

Escafandro maldito! O homem dentro de um invólucro. Extasiado com o vazio escuro. Vida a luz de vela. Verme rastejante numa paralela absurda. Morte certa. Vida curta. Vento assombrado que bate na janela, todas as manhãs. Habitante de uma gaiola ilha. Profeta inapto, poeta nulo, cantor de não cantar. O homem dentro de uma cova.

Acostumou-se com esse universo inversivo. Fez pactos com as corujas, politizou-se com os carcarás... Alquimista inerte. Guerreiro inerme. Operador de máquinas em desuso.


O semeador de insônias sem propósitos. Fica lá, velando madrugadas, salgando luas, desenhando arrebóis, tecendo com artesania as tela dos amanhãs... Destarte, engana a turba que passa e o observa, subindo e descendo as escadarias da torre da ampulheta... O incrível é que ninguém percebe a casca que o reveste: a sua triste habitação.


Canção de adeus

Um último fio de luz engolfa meus olhos
Atravesso em silêncio o túnel temido
Nunca tive tanta coragem na vida
Tanta pressa para que um verso termine

Há um barbante que vai demarcando o caminho
Um grande espelho – um anjo vestido de linho
Mas eu não o vejo – eu apenas sei, eu apenas sinto

Não faço uma última prece para nenhum santo
Deixo fragmentos de mim por todos os cantos
Porém, nenhuma carta, bilhete ou coisa que o valha

Deixo uma pipa amarrada na calha – (eu adoro as pipas)...
Tantos avisos deixei – hoje eu sei quando ouço minha própria voz
Sou meu poeta preferido, meu destempero, meu algoz

Aquele que no último adeus ainda escreve
Verso pouco, pequeno, verso breve
Verso pálido, embranquecido, versos tolos, versos meus

Cantilena floreada no coro uníssono de um adeus!

... Um último fio de luz engolfa meus olhos.



 Solidão ou minha biografia cabe num simples haicai

Solidão, esse escafandro de aço que visto. Esse profundo mar de pequenas coisas insignificantes. Pequeno quarto de descomunais significados. Conheço de cor o costume dos pescadores noturnos, as pragas dos mochos, o ensaio do choro afinado das carpideiras, a maldição da licantropia. Eu também sou meio bicho, meio lobo. Eu também enlouqueço nas noites de lua. Todos os homens têm uma grande história para contar. Uma biografia rica de detalhes. As tristezas e angústias dos outros dariam um grande filme... Toda a minha vida cabe num simples haicai japonês, um artesão das palavras talvez conseguisse construir um soneto com os fragmentos pobres dos acontecimentos da minha vida. Mas tenho certeza que de um soneto não passaria. Sou apenas um solitário que conhece as constelações, o mapa das marés e os horários dos trens. Ser solitário significa conhecer bem as montanhas, os rios, a poesia. A leitura é o ópio de um homem solitário. A solidão nos brinda com certos poderes que beiram o sobrenatural. A metafisica é um portal para o conhecimento interior. Apenas um baixo muro separa o conhecimento interior de um quarto branco de um manicômio. A solidão é assaz proveitosa para quem tem uma alma desbravadora das coisas incorpóreas. O mundo como vemos da janela soa pobre para quem procura pistas obscuras em dimensões que parecem estranhas aos homens comuns.

Solidão, essa cabana furada, essa busca pelo tudo, essa luta por nada, essa confusão de algoritmos, esses signos sem significados aparentes. Esses tantos caminhos. Conheço de perto as estações. A boca vulcânica do verão, o desalinho do outono, a insensatez do inverno, a promiscuidade da primavera... As lutas das virgens, os conflitos das mulheres, o sentimento dos homens. O ser humano tem ojeriza da solidão. A solidão tem cara de morte, amiúde. A solidão é um bicho, uma doença maligna, um nevoeiro infernal, assim pensam.  Não conhecem a solidão, de fato. Essa entidade silenciosa, musical, aberta as cores, aos mundos, as resoluções. A solidão é a mãe das artes, das atitudes, dos fenômenos mágicos que transformam as almas. A solidão é a única embarcação capaz de tirar o homem da ilha do si mesmo. É a solidão que me faz enxergar minha pouca história, meu pouco de mim. Sem ela, eu talvez acreditasse que eu caberia num imenso livro cheio de bobagens, mas a solidão me ensinou que nada sou, e caibo em qualquer haicai de guerra ou de paz, aí depende da visão do autor.


Beijo no parque


Nosso beijo no parque
Desestabilizou os ventos frios
E acendeu a pira
De um verso adormecido

Desnorteamos os vórtices árticos
Espantamos as nuvens

Trouxemos o mar
Os passarinhos
E um torvelinho de mariposas

Para ilustrar o cenário

Do nosso beijo no parque.


Vento de Tbilisi

Um vento frio que vem lá de Tbilisi soca minha face
Nada tenho, além de elefantes comedores de alface...
Nada tenho além da ilusão âmbar das madrugadas doridas...

Escrevo por escrever – angústia alguma me inspira
O que espirava era o azul de uns anos passados
Certos vestidos vermelhos que ela usava

Já fui mais tolo do que neste presente momento
Já acreditei no amor
Na desfaçatez das camas
Nas paixões que inflamam
Na ave do gozo...

Desentranhei tais sentimentos
Enterrei passados, sepultei momentos
Instantes de felicidades são primaveras apressadas, tão somente...

Escrevo por escrever – saudade alguma preme meu peito
Flor alguma nasce no meu deserto
Mar algum se abre diante dos meus olhos...

Nada tenho, além de poemas de gavetas
Nada tenho, além de macaquinhos e caretas
Pantomimas sem graça, cão sem raça, vazio
Estio de inspiração, senhas, vontades de voar não tenho mais...

...Um vento frio que vem lá de Tbilisi soca minha face
Eu e esses elefantes comedores de alface...

E a solidão de ser só.


Radyr Gonçalves

Um comentário:

  1. Eis uma pequena/grande mostra da forca da nova geração de poetas que surge para repor nosso eu lírico em estado de êxtase. A força das palavras e das imagens abre um campo exploratório, uma nova semântica que nos faz compreender que a vida é incompreensível. Mas pode ser sentida com emoção, alma e coração. Apesar de toda a solidão e do vazio que nos cerca.

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