Sete Poemas de Paulo Miranda Barreto



DA BUSCA

O tempo não passa . . .  Nós é que passamos
(Hipnotizados por ilusionismos)

E retrocedemos enquanto avançamos. . .
(Fãs de fanatismos ou de ceticismos)

De onde viemos? Para onde vamos?
(Vivemos sem saber por que existimos)

E intrépidos ou trôpegos vagamos. . .
(buscando o céu no fundo dos abismos).


DELÍRIO DE LIBERADO
(para Manoel de Barros)

pra lá de onde o vento sai da curva
eu vi, um dia, a chuva tomar Sol
e vi Jesus salvar uma saúva
e encaracolar um caracol


vi Lúcifer cair
como uma luva
das mãos de Deus
aos pés de um rouxinol


e fiz a Solidão ficar viúva
do amor que enluarava
um girassol


Depois . . . a minha vista ficou turva
e nunca, nunca mais
vi nada igual. 


A SENDA

No final da vida
da lida, da estrada
da linha que finda
no fim da picada


tudo se desvenda. . .
não existe o Nada
Para além da lenda
a Verdade brada


Lá ninguém duvida
da Alma lavada. . .
Entrada é saída
Partida é chegada


Retirada a venda
reluz desvendada
a infinita Senda. . .
Não existe o Nada.

♣ 

POEMA PARA A NOVIÇA

Noviça . . .  porque estrangulas
tuas gulas violáceas
e gélida dissimulas
a rubra cor das acácias?


se até o verme copula
procria . . . e  dá-se ás audácias
em nome de quem te  anulas ?


não vês . . .  que enquanto te anulas
Deus
            ejacula
                             galáxias?

♣ 

TROVA PRA MENINA TRISTE
(primeira versão)      

Os meus versos em seus lábios
caem bem . . . como uma luva
Você os enche de Sol
mas seu olhar . . . guarda chuva.




AS CINZAS DO SOL

No fundo de meus olhos
a bruma dos milênios
mistura-se a luares e auroras

a extintos oceanos esquecidos
a meu cansaço
e à cinza das demoras. . .

Fiz tanto amor! Fui tanto! Tantas vezes!
Domei ventos velozes
li poemas

fui filho, pai, irmão . . . Sou quem  agora?
Um Sol sem luz  . . .  à sombra
dos dilemas

Restou-me nada além do meu silêncio

Restou-me nada além do teu silêncio. . .

Restou-me nada além deste silêncio 
pairando  . . .  sobre os meus gerânios
murchos.

♣ 

PEIXE FORA DÁGUA

Enquanto me asfixio
com cigarros no saguão
ensaiando o balbucio
de uma impossível canção


sinto que me distancio
das fronteiras da razão
e avanço com desvario. . .
em nenhuma direção


E é tanta a dor, que sorrio
no ápice da aflição!
Parece um prazer sombrio. . .
mas, é resignação


Hoje, amar é um desafio
para quem ‘tem coração’. . .
-Só o frívolo e o vazio
saem sãos da confusão-


E eu, que me dou e confio
viro presa da ilusão
Sou peixe fora do rio
Estranho na multidão. . .


E enquanto me asfixio
sob as cinzas do vulcão
sequer . . . sequer desconfio
que causei a erupção.

PAULO MIRANDA BARRETO
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