SETE POEMAS DE MARCOS ANTONIO CAMPOS


FINA ESTAMPA
  
A magra por natureza
Desfilando o esqueleto
É um balançar de beleza
Como a poesia do soneto

A elegante flor esquálida
Templo de coluna Jônica
Como um lírio de tez pálida
É a deusa de minha crônica

O movimento em silhueta
De teu belo corpo anoréxico
Nos meus gametas projeta

Procurar teus olhos fundos
Serei então poeta aléxico?
Iguaria de um amor profundo


MELANCOLIA

Na tarde em que tu partiste
Fui jogar minhas mágoas ao mar
Gotas de lágrimas que insistem
Em mostrar a tristeza do meu olhar

Junto à orla só eu com a minha dor
Aos meus pés uma linha de espuma
Mostra-me um aspecto revelador
A dor do amor o coração não exuma

O ocaso do sol o afasta de mim
Tritão de mim o mar afasta
Minha sombra se afasta de mim
A dor da solidão me devasta

Não há nada
Não há vida
Não há ninguém
Não há tábua de salvação
  

PRESO A UM SONETO

Estou preso a um soneto
Medindo dois quartetos de frente
Por dois tercetos de fundo,
Condenado a catorze versos.

Denunciado por uma rima,
Acorrentado a uma métrica,
Torturado por sílabas tônicas
Na sexta e décima do decassílabo.

Amaldiçoado por um júri alexandrino
Pelo crime do soneto monostrófico,
No qual só quis brincar com as palavras.

Não quero ferir o vocábulo
Nem dizer impropério ao vernáculo.
Quero apenas liberar sonoridades

  
REFLEXO

Meu reflexo junto à água
É minha imagem roubada
Refletida em minhas mágoas

Meu reflexo no espelho
É a imagem do meu ego
Sempre um grande astro

Meu reflexo em teus olhos
É a luz de um diamante fino
Que ilumina meu desatino

Minha poesia no espelho
É um poema transverso
Imerso no reflexo - inverso anos atrás.
  

SEMPRE

Sem precantar
Cantar sempre
Sem preamar
Amar sempre
Sem preconceber
Conceber sempre
Sem preceder
Ceder sempre
Sem predispor
Dispor sempre
Sem preponderar
Ponderar sempre
Sem prefixar
Fixar sempre
Sem predizer
Dizer sempre
Sem prejuízo
Juízo sempre
Sem prever
Ver sempre
Sem previsão
Visão sempre
Sem pretexto
Texto sempre
Sem prenome
Nome sempre
Sem preocupação
Ocupação  sempre
Sem preopinar
Opinar sempre
Sem preposição
Posição sempre
Sem premeditar
Meditar Sempre
Sem pré-Natal?
Natal Sempre

  
TOALHA

Ela que cobre minha nudez
Ela que esconde minha flacidez
Ela que sabe de minha intimidade
Ela que me acompanha desde a tenra idade
Ela que me seca, tão envolvente e macia
Ela que me esquenta, abandonada no peito
Ela que me protege, mesmo desbotada
Que me envolve com seus fios
Que me protege do frio
Ela que é a amiga de sempre
Sempre disposta ao meu lado
Mesmo pendurada em seus problemas
Sempre a encobrir os meus pecados
Ela como de costume
Absorvendo-me o perfume
Ela que me respeita
Numa química perfeita
Ela que limpa no quarto
O menstruo e as dores do parto
Ela que limpa na cama
O orgasmo e os fluidos de quem ama
Ela que não responde
Quantos segredos esconde?

  
UM CRAVO COM PÁ DE CIMENTO

A sombra da luz mortuária
Anuncia a chegada da morte
E o início da viagem solitária
Num ataúde que a transporte

Plangências na dor visceral
A espera do corpo do falecido
Dá início a vigília do funeral
Num ambiente triste florido

O séquito da urna funerária
Rumo ao jazigo na Candelária
Plangente na dor e sofrimento

Sem bálsamo para esta amargura
A caminho das trevas na sepultura
Lance cravos com pá de cimento.

MARCOS ANTONIO CAMPOS




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