SETE POEMAS DE JEANNE ARAÚJO


SAGRADO

Se permitires
que eu trace
em tua pele distraída
pequenos cursos iluminados,

Se permitires que eu caminhe
secretamente entre teus seios
como uma tênue labareda,
Se permitires, enfim, abrir terraços
e alamedas no teu corpo nu
de estreitas paisagens

Se permitires, invocarei
o silêncio das tardes
e o vazio das capelas
e catarei poesia entre seus olhos
e cantarei poemas em teu sacrário.
  

      💐 💐 💐


DESASSOSSEGO

Que desassossego é esse
que me sobe pelo corpo
que pausa o tempo
e tece a teia cor-de-rosa?

O que te digo ao ouvido
e em segredo eterno
será ouvido pelos telhados?

Por que esse anseio
esse gozo ancestral é um desassombro?

Uma unção de sal sobre uma carne
entreaberta e ardida
me expõe sobre antigas escrivaninhas.
  

      💐 💐 💐

  
CANÇÃO DE AMOR ÀS PALAVRAS
  
Dei pra pisar em tudo que me fere:
espinhos, cacos de vidro,
estiletes, coroas-de-frade.
Só não pisei as palavras
porque me estancaram o sangue.


      💐 💐 💐

  
ILUMINURAS
  
Quase não se ouvia
o arrastar das horas
pelos viés das lonjuras
atropelando as saudades
desatrelando as janelas
descarrilhando os suores
desferrolhando os pudores.

Então fui macerando espinhos
e emplastando segredos.
Pisei um monte de ervas
botei no dorso e nas asas.
Sarou.

Ficaram apenas iluminuras.


      💐 💐 💐


CANTARES
  
Porque aqui dentro tudo me cabe
espalho lótus pelos corredores.
Do outro lado da mesa
meu coração amadurece espinhos
e já não sou essa que sou,
meu coração está plantando farpas.
O que antes era cortina e aconchego
caiu terrivelmente sobre mim
(sentimento que conheço de antemão).
Antecipo ciúmes e indagações.
A alma lateja, reveste-se de prece,
o coração emudece nos corredores da boca.
  

      💐 💐 💐


RETORNO
  
Que não venhas.
Deixa que eu retome a vida
nessa casa de fantasmas.
Porque vem a noite
e o canto dos grilos.
Há ainda os suores noturnos,
caminhadas intermináveis
com olhares taciturnos.
Não venhas. Nem te avizinhes.
Não faças tanto alarido.
Deixa.
Eu mesma rasgo esse vestido.
  

      💐 💐 💐


BECO ESCURO
  
Tudo já tive e tudo perdi.
Desenvolvi o gosto pelo sal,
constrangida pela meia de seda
que aparecia.
Era o céu disfarçado de beco escuro.
Ele tocou minhas coxas
por baixo da saia.
Eu arregalei os olhos
de susto e desejo.
Meu peito palpitante
disse: te quero,
como a água que procura um atalho
para se perder no mar.
Depois foi o amor subindo
pelas têmporas, negro,
sufocando o coração.
Tudo já tive e tudo perdi.
Só o amor me sacrifica tanto.


JEANNE ARAÚJO 

Jeanne Araújo é natural de Acari e mora em Ceará-Mirim. É professora graduada em Letras, poeta e escritora. Tem publicado o livro "Monte de Vênus" pela Editora Offset e “Corpo Vadio” pela Editora Penalux. Foi vencedora do Concurso de Poesias Luís Carlos Guimarães (Fundação José Augusto - 2006) e obteve prêmios em vários concursos estaduais e nacionais.




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