Sete Poemas de Erilva Leite


CUTELO

Algoz
Remexe à tumba fria
Elegantemente vestindo
A hipocrisia
Hediondo o crime
O meu de amar
Esperar o escarro, Augusto
Em vez do beijo
O cinismo em troca do carinho
A desfolhada flor do meu desejo
Vertido o sangue fresco
Na dor e agudez - o corte do espinho!
Lançada está a sorte
Sem rolar os dados
É hino
É coro
É Ode para a Morte!

  

DRUIDA

Silente ser
Entre tristezas vela
Gosta da dor
Da semente de tudo o que é triste

É na dor que sobrenaturalmente existe
O que não me mata Nietzsche,
Faz-me poeta!

Sorver dos meus abismos
O fel dúlcido dos escombros
Furtiva dor em dilacerantes assombros

Soluçante ser
Entre as brumas esquecida
Dama da morte
Que reluz a sorte

De ser Druida
Caminhante ser,
Algoz da vida!



FACE CONTRÁRIA
  

Ás portas do silêncio
sobejo o frio das calçadas
como esmola, a lua indiferente sorri
infeliz daquele que morre antes da hora
e das quimeras não ousou beber
tal dúlcido composto em fatídica taça
é preferível na inominável face do hoje
elogiar aos loucos, brindar aos bêbados
e decifrar nas lápides, as lâminas a que me feri.
à participar deste banquete infame
ao qual  todos se apontam e se inflamam
pois nada fazem. Nada são.
e em vão, esvai-se tudo...
tudo é findo, tudo é não!

  

FENDA INERTE


No labirinto profundo
Em que dorme a minha sombra
Nem Jung ou Freud o saberia

As nuances letais da agonia
Da verve poética que do meu ser exala
Somente a orquestra sinfônica da fala

Contrapõe-se ao que me cala
Que é fria lápide
Tal fenda inerte

Preciso mais que flores vermelhas
Jogadas no esquife
 Para embelezar
Cada pensamento meu

Que bebe das leis  do ostracismo
Mas que é majestoso e suspenso
Nos portões a que nos iguala

Na frialdade deste chão,
Mas resplandecente  é  sempre – o berço
Que nos acolhe a vala!



IDOLATRIA

Amo-te como um bicho
Raivoso, Medonho  e sem Escrúpulos
Acorrentado à certeza única
 de que não foste meu

Ages comigo do cerne
do amor
como um ateu

De negativas,
de palavras quase sempre torpes
Generalizas

 Louca
Insana
Insaciável

Bebendo desta fonte
Inesgotável
Néctar dos deuses
Cálice divino.

Cálice do meu  amor e de minha promessa
Não quebrada

Vicejas tal anjo
Vil, pátria entre tantas
a mais amada

 idolatrada, penetrante
 visão  do amor
Transbordante e  eterno
Em seu apogeu!!

   
MAUSOLÉU

(ao amigo poeta e filósofo, Roberto Noir)

Bebo da fonte
No leito das esferas
Cítaras sinistras
No orquestrar das horas

Pujante ser estranho e inquieto
Ensandecido fulgor de sombra e escuridão
Esplêndida aurora em cética rutilância
Contrário a mim, ausente desta razão...

De majestade em si, ser tão perene...
Apogeu em recônditas distâncias
Fragor sinistro em que vicejas e imperas

Mausoléu das horas mortas
Tragicamente trouxeste o fim
Há finitude no teu silêncio
A tua arcana morte – é o que dá vida a mim!



O TEMPO

Ah o tempo
O misterioso, anfitrião da eras.
Oh, incauto deus
que a tudo dilacera.
Que a dureza do mármore
Sem dó
Corrói
e aniquila.
És o menestrel
das noites vagas
Hierofante, da corte celestial
Tens o brilho das estrelas,
Mas vicejas - na escuridão total.


Erilva Leite




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Um comentário:

  1. Erilva Leite pertence a uma nova geração de poetas que surge com força no cenário da literatura potiguar. Já merece publicar um livro. Ficamos esperando ansiosamente, pois um autor só fica mais conhecido quando coloca sua produção na mídia impressa. A eletrônica, apesar de tudo, ainda não emplacou e não garante perenidade como o velho livro. Parabéns, poeta... Continue produzindo...

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