Sete Poemas de Claire Feliz Regina


A minha solidão

Fecha-te, ó minh’alma,
por favor, não dê ouvido.

De novo, estão querendo te enganar,
estão querendo te dizer
que existe amor sem ser sofrido.

Diz para esse meu coração,
esse tresloucado,
que quer viver apaixonado,
que o amor é um perigo.

E você que sabe disso, fecha a porta,
fica alerta,
ele já está de porta aberta.

E é justamente aí,
que o sofrimento encontra abrigo.

Diz para ele, que de medo de sofrer,
eu já nem tenho solidão,
eu já aprendi a viver comigo.

Diz que até viver sem amor
eu já consigo.


O sol

O sol sabe que é rei.
O sol sabe que até deus ele já foi.
Mas o sol tem uma grande tristeza,
para ele, um erro da natureza:
embora a luz seja sua,
ele nunca vai saber
o que é um luar.


Separação I

Que hora triste e linda
você escolheu para ir embora,
o nascer do dia,
ao raiar da aurora.
Eu fiquei olhando,
vi você sumiiiindo, iiiiiiindo na estrada
e eu não sabia mais
se era noite ou se era dia,
o dia clareava,
a minha vida escurecia.


Separação II

Numa divisão equitativa de bens,
você leva tudo o que temos e
tudo o que é seu.
E eu:
Só levo eu.


A mulher objeto

Primeira parte:
O que será que a agulha sente
quando passam a linha por ela,
será que ela sente dor?

Será que ela sente prazer?
Ninguém se preocupa em saber.
Eu sou como a agulha.

E quando a linha está passando,
eu finjo que estou gostando,
faz parte do meu trabalho.
É assim que pensam os insanos,

Estou casada há muitos anos.
Uma mulher como eu,
sempre mente.
Mente o que não sente,
mas sente muito o que mente.

Assim como a agulha,
eu costuro, lavo e passo.
E às vezes, até me entusiasmo,
mas meu marido nunca pergunta
se eu já cheguei ao orgasmo.

Ele me deixa no agulheiro.
Só trabalho quando ele quer.
E ele ainda me diz:
É para isso que serve a mulher.

Vou sair desse agulheiro,
procurar no mundo inteiro
o homem certo para mim.
Sem essa de meu marido,
sem essa de minha mulher.
Agora, no buraco da minha agulha,
só vai passar a linha,
o homem que eu quiser.


O tempo

Olho a lesma
com essa paz
que ela me traz.

Não tem pressa
e nem depressa
tem que andar.

Não tem que ir.
Mas se for,
não tem hora
para chegar.

A lesma segura o tempo
no seu andar.

Eu tento segurar a vida
no meu tempo
que eu não posso segurar.

O meu tempo correu depressa
porque eu sempre
tive pressa de chegar.

Mas agora que cheguei
o que eu mais quero
é voltar.


Sonho

Em devaneio eu vi o amor
a alegria e a felicidade,
cheguei bem perto,
vi até onde eles moravam.

Sonhando,
não tinha o limite da realidade.

Olhei para a casa deles e vi
que não era uma casa, era uma fonte.
Eles moravam na fonte,
e a fonte sempre jorrava.

Mas se o amor nasce na fonte,
por que é que todo mundo não tem?
Tem sim.

Todo mundo tem amor e felicidade,
quando está sonhando.
Se não tem, é só
porque está acordado.

Claire Feliz Regina




Mais poesias no Portal Radyr Gonçalves... Acesse www.radyrgoncalves.com

Um comentário: