SETE POEMAS DE ANCHELLA MONTE

Conheça melhor a poesia da Poeta cearense Anchella Monte
A TRAMA DA ARANHA

A aranha trama
traça na memória
a trajetória do tule.
Trama e traça
executa e aprimora.

Todo o dia
todos os dias
todas as horas.

A aranha não erra o ponto
não erra a medida nem o espaço.
É sempre certo e preciso o traço
o traço que a aranha traça
na trama
da tarde
no teto, sobre a cama.

Há uma aranha escondida
em minha caixa de assombros
que trama a textura do xale
que jogo aos ombros.

(A Trama da Aranha)
  
      💐💐💐
  
DESFILE

Perfilados
no caminhão trepidante.

Adiante
o carro de som:
Grande Circo...
circo internacional...
espetáculos...

Adiante
a cidade nervosa
os canteiros de rosas
o calor do sol.

Perfilados
os elefantes
dois camelos
um leão enjaulado
trepidam no caminhão.

Empregados de circo:
leão, camelos, elefantes.

Triste sina de ambulantes!

(A Trama da Aranha)
  
      💐💐💐
  
O CÃO

O carrapato (bom reprodutor)
sugou-lhe a saúde.

Manco
o cão persegue borboletas e pássaros
escarafuncha lagartixas
nos tijolos esquecidos.

Late para o vento
late para os pregoeiros
para os de dentro e os de fora.

O inimigo
carrega consigo.

(Temas Roubados)
  
      💐💐💐
  
A  CADELINHA

Quintal.
Acerolas, mamoeiro
cebolinha e tomate.

Jardim.
Pé de café, papoulas
primaveras, coqueiro.

A cadelinha
late
no jardim alto
açulada
pelo movimento
da calçada.

No quintal
litúrgica ao revolver
os canteiros.
  
Vista
o homem a castiga.

O tapa. O chute.
Grita. Grita.

Arrasta as patas
traseiras.
Não entende.
A noite
se estende
sobre as feridas.

(Temas Roubados)
  
      💐💐💐

O CARNEIRO

Presente.
O carneiro
morreria para o churrasco na praia.

Preparos.
Mesas, temperos, bebida
e o principal regalo:
o carneiro.

Olhos tristes no mar parado
preso à cerca e  ao coqueiro
o carneiro.

Sucedem-se as pauladas
dos homens sem fúria.
Caçada urbana e espúria
tortura a caça amarrada.

Lenta a morte.
O carvão se incendeia
e prepara a farra e o olvido ao carneiro.

Os homens embriagados
tilintam copos e garfos
em contentes brindes à vida
sobre o carneiro no prato.
  
(Temas Roubados)

       💐💐💐
  
CAVACO, ARANHA E RASPAS DE LUA

A aranha disputa com o vento
um naco de cavaco chinês.

A aranha da teia tenta o resgate
o vento chega e parte, chega e parte
fazendo festa com o cavaco chinês.

Em um impulso mais forte
o vento carrega o cavaco para longe da teia
a aranha passeia à procura.

No canto de um muro
cavaco e poeira se misturam
perdida a leveza.

O vento leva para a teia
aparas brancas de lua cheia
que vazam pela janela.

(Pesos & Penas)
  
      💐💐💐
  
MORTE DOS PEIXES

A máquina vai e vem
faz crescer uma casa diante dos meus olhos
vejo-a regada por pedras, adubada
por cimento e vigas.

A máquina é incessante
ruído de aço na terra
na teia de vida que habita
postes e muros: pássaros,
aranhas, corujas, embuás.

A máquina se espalha,
terra tomada, ar naufragado
canto fúnebre para meus
peixes mortos na fonte:
hoje e ontem, peixes mortos.

Choro por seres miúdos
que não constituem história
lançados no despejo
rutilantes outrora.
  
(Entre Tempos)

ANCHELLA MONTE Fernandes Ribeiro Dantas nasceu em Fortaleza, Ceará, em 15 de outubro de 1957. Filha mais velha de Henrique Fernandes Silva e Salete Monte Fernandes. Pai sargento da Aeronáutica, foi transferido para Natal antes que a filha completasse o primeiro ano. A família permaneceu na cidade até o golpe militar de 1964, quando se tornou necessária uma mudança de vida, de destino. Foram para São Paulo e lá residiram em três cidades: capital, Santo André e São Pedro. Na última se demoraram por quase nove anos, vivendo ao pé da serra, entre amigos. Anchella e irmãos estudaram no Grupo Escolar Gustavo Teixeira, vizinho à biblioteca de mesmo nome. Aí surgiu a alegria de ler constantemente e a descoberta da escrita literária. De volta para Natal, em 1975, concluiu o ensino médio na Escola Estadual Winston Churchill e cursou Letras na UFRN, graduando-se em 1980. Professora de Língua Portuguesa, tem desenvolvido projetos de leitura voltados para a literatura potiguar, tais como Poesia em Cena, O Autor é Leitor e Poesia no intervalo. Casada com Cláudio José de Menezes Ribeiro Dantas, tem três filhos- Cláudio Henrique, Luísa e Juliana, cinco netos- Clara, Laura, Celina, Angelina e Henrique. Escreveu os livros: Passagem (1976) e Ato (1979), com amigos, e individualmente A Trama da Aranha (2001/ Sebo Vermelho), Temas Roubados (2006/ Sebo Vermelho), Pesos & Penas (2011, Sebo Vermelho), Entre Tempos (2015/ Sarau das Letras). Participou das coletâneas As 14 mais da Poesia Feminina Potiguar (2007- org. Abimael Silva), Presença da Mulher na Literatura do Rio Grande do Norte (2012- org. Zelma Furtado e Kacianni de S. Ferreira) e Coletânea de Poemas da UBE/ 2015 (org. José de Castro). No ano de 2016, foi premiada com o Troféu Cultura Edson Claro, pelo livro Entre Tempos.


Acesse o PORTAL RADYR GONÇALVES e leia mais poesias


Nenhum comentário:

Postar um comentário