SETE POEMAS DA POETA MINEIRA AMANDA VITAL


"hiato"

cortinas balançando ventos ocos
as frestas uivam as interminabilidades
e meus ouvidos vibram a ode
da noite
a cidade segue sussurrando no escuro
voa a pena de um passarinho, fina
despetalada
transitória
por entre vagalumes estáticos
preenchendo lacunas nas ruas
voa pelo toque denso do teu suspiro
que habita o intervalo transcorrido
entre tudo o que agora fere
:
o hiato das nossas peles.


primaveras

terra fria de chuva se aloja sob as unhas
germinando arrepios e relvas pele afora

entrelaçando dedos as barbas do jardim
arranham cada partícula da raiz exposta

das mãos espalmadas no campo regado

vem, da garganta de abelhas circulando
e ricocheteia as paredes da minha carne
pelo faro carmim dos Antúrios Sagrados

vem e me descama do súber até a seiva
caído em flor no nosso chão de orvalho.


abismos

como quem espera nirvanas caírem do céu
revira os olhos num branco incandescente
abre seus lábios entoando o último mantra
gotejando da saliva as águas de Hipocrene
o corpo inteiro agora flerta com abismos
dos braços os frêmitos, da pelve o sismo,
sobrenatureza inquebrável dos prazeres
é alma em plena fuga do domínio místico
latejando o mundano clímax desprendido:
gozo rendido pela mais mortal dos seres.




“arroz”

encontro Deus toda vez que faço arroz
: o alho saltitando no ritmo das preces,
exalando as bênçãos no azeite quente

colheres batendo na beirada da panela
são sinos invocando orações de alívio
a sentimentos em fluxo no purgatório

já fervida a água, batizo meu sustento
jorro o santo líquido que o engrossa,
mexo os grãos, cubro, reduzo o fogo

e aceito a delícia de não se ter pressa:
a carne vazia que ora agoniza, trêmula,
preencho com minha própria entrega.


“tato”

mergulho inconstante na luz que se forma
dos olhos fechados ao mundo descorporado
no lado de dentro, lampejos na fauna órfica
: o dedo do divino e seus espirais incrustados
tocam a pele nínfica de toda a floração
ao som da clareza de suas vogais
a precisão das notas que ressoam e ecoam
da lama em sua mais tenra forma
tudo é despejar-se
e o corpo entregue em semeaduras
recebe o último toque etéreo do pó.


“casca”

o tempo da delicadeza se dissipa feito a espuma
que se forma na crista da taça de vinho corrente

insiste no gozo sereno, nas bolhas que explodem
entre o tato da janela aberta e seu cálice-ventre

na carne que habito, sutileza é puro impropério

há finas fagulhas que se desprendem do inferno
e pairam em meus poros e esperam pelo sangue
na linha tênue da pele que se afunda em cordas

o meu corpo se debate sob gritos escorchados,
refém de estalos intrínsecos e manias sórdidas

e nós gozamos sob o cheiro de atrito do couro,
sob o sangue que irrompe, sob velas queimadas

: pelo prazer das nossas camadas descascadas.


"autotrofia"

cresce em cada ventre uma rosa
de raízes aterradas no limbo d'alma

irrompe no dentro seu sacro elixir

se arrasta em pétalas douradas
e desemboca no abismo de si

linhas etéreas refazem caminhos
em minha própria semeadura
: rastros das filhas da rosa-mãe

ó, mãe de toda a autotrofia

abriga-me entre tuas coronas
e dai-me o pólen de cada dia.


AMANDA VITAL


  
Conheça melhor Amanda Vital...


Amanda Vital nasceu no interior de Minas, na cidade de Ipatinga, em agosto de 1995. Apaixonada por Literatura, começou o curso de Letras na Universidade Federal da Paraíba em João Pessoa, onde residiu entre 2014 e 2017. Hoje continua o curso na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Participou do Grupo Aedos de declamação, apresentando-se em saraus e lançamentos de livros. Publicou o livro “Lux” (Editora Penalux, 2015) e participou de algumas antologias, como “Ventre Urbano” (Editora Penalux, 2016) e “29 de abril – o verso da violência” (Editora Patuá, 2015). Atualmente, posta seus poemas nos blogs “Amanda Vital Poesia” e “Zona da Palavra”.

2 comentários:

  1. Amanda Vital vem com a força da poesia das Gerais, berço de tantos poetas essenciais. Uma poesia de sustança, de tutano no verbo. Deliciei-me. Degustei de uma garfada só do olhar.

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