SETE POEMAS DA POETA GOIANA LILLY ARAÚJO



EUTANÁSIA

Resolveu dar cabo da vida,
entrou para um quarto e
tomou uma dose letal de poesia.
  
TAÇA

Oferece-me uma taça de vinho,
e imagino-o imediatamente tinto,
rubro, como o sangue nas veias a ferver.

Brindo com taça de cristal
a você, que me oferece,
talvez sem saber,
à artesã o sisal.

Tim-tim!
Um brinde a você e a mim.
A nós, que nos embriagamos em
palavras ditas em versos,
de desejos puros ou perversos!

TE AMO FEIO

Eu te amo, como os raios
de uma manhã esbranquiçada
despejando as lambidas
desavergonhadas do sol sobre
as moçoilas que usam fio-dental.

Te amo como os dentes afiados
de um tubarão faminto, e entre
a anágua da água-viva
a tatuar a pele de banhistas.

Te amo leve,
como a pena da águia
a despencar, solta,
dos céus azuis e infinitos,
e como toneladas de oceano
que enterram navios vivos
que não mais são.

Te amo feio,
entre as partes mais escondidas
e mal cheirosas do corpo,
onde nos deleitamos no
bálsamo do prazer
sublime e santo.

Eu te amo
sem ter que explicar,
ou mesmo que entender,
para que serve amar tanto.
  
APATIA

Hoje ninguém me tirará de dentro de mim.
Quero o aconchego do toque do cetim,
o abraço soturno das penas da graúna,
e o silêncio gélido da criatura noturna.

Amanhã não sei mais se será assim como outrora,
ou se os sonhos se desvanecerão na aurora,
por hora, isso é tudo que quero estar:
— perdida no breu; no dentro;
no fundo; no impenetrável do eu.

Hoje eu quero me resfolegar no vinho tinto,
despedaçar sem piedade a minha taça,
e deglutir o paladar do absinto.

Amanhã talvez nasça outro desejo proibido,
e se me vêm outros ares de graça,
eu finjo que sou uma criança a brincar na praça.

DISTOPIA

Eu conheço os passos da dança,
mas piso no teu pé de propósito.
Eu conheço as regras do jogo,
mas adoro a infração a que me proponho
todas as manhãs.

Eu reconheço o seu xeque-mate,
mas viro o tabuleiro,
confundo todas as peças,
e ferro com tua cabeça,
só para sorrir à noite.

Eu conheço todas as lágrimas,
mas as escondo num vidro
com tampa fechada à vácuo,
e o pote só se quebra nas madrugadas,
onde eu não reconheço mais nada.

DURA CERTEZA

Choro mais que as lágrimas conseguem brotar,
e mais que as hastes possam sustentar
a desestrutura do agora.

— Por que choras pobre menina?
Pergunta a voz do que não ouve.

Choro a perda irreparável
do cantor sem sua voz;
do pintor sem os dedos;
do louco que se curou,
e não sabe continuar...

Choro os dedos extirpados das fiandeiras,
e o pintor que não tem mais os seus pincéis,
o choro da bailarina sem seus pés.

Eu choro, porque agora,
eu sou eu sem eu mesma,
nessa dura certeza
que você jamais!

POEMA MARÍTIMO

Tu vinhas
e ias como as
ondas do mar

Tu foste,
e não voltaste.
Nunca mais onda.
Nunca mais mar.
Nunca mais A-mar!


LILLY ARAÚJO

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