SETE MULHERES ♣ 3ª edição • COM ADÉLIA • LILLY • RAQUEL • ZILA • ERILVA • JUSSÁRA e ADÉLIA PRADO


DESTINO DE SOL
LILLY ARAÚJO

Quando o sol estava prestes a partir hoje,
abraçado ao horizonte,
na sua repetida liturgia de amor
e de renúncia de si,
trazia a melancolia no olhar,
como tem aqueles que, pelo seu destino,
sempre se entregam à crucifixão.

Quando o sol se despediu hoje, mudo,
sem reclamar do seu suplício diário
de morrer todas as tardes,
para ressuscitar todas as manhãs,
eu estava lá, crente, a mirá-lo em devoção.

Com destino de sol,
eu também me entrego todos os dias,
sem resistir à cruz, aos pregos,
e a todos os infortúnios que juntos vierem.

Porque se o sol morre feliz,
ainda que imaculado,
eu morro, resignada,
para expurgar o meu pecado.

O meu pecado, confesso,
sem muita descrição,
sem até, nenhuma discrição,
que é o de amar sem freios,
e sem pitadas de razão.
Amar o amor de morte,
e vida, e ressurreição.


MEMÓRIAS MAL-ASSOMBRADAS
RAQUEL ORDONES

No sótão da alma, são tantas as poeiras,
Leiras de espinhos abrem as gavetas,
Nas gretas do assoalho tem ratoeiras,
Nas beiras da vão não tem borboletas.

Caretas do passado não passam,
Pirraçam! _Buuu! São de venetas,
Tão xeretas lembranças nos laçam,
Amordaçam-nos, são quase capetas.

Piruetas e sustos no porão,
No coração arrastam tantas correntes,
Ambientes penumbras de ilusão,

O casarão de nós requer presente,
Em candente sol, ar, renovação,
A solidão e rancor assombram mente.

#ordonismo
Uberlândia MG – 08/07/2017
https://raquelordonesemgotas.blogspot.com.br/


O TEMPO
ERILVA LEITE

Ah o tempo
O misterioso, anfitrião da eras.
Oh, incauto deus
que a tudo dilacera.
Que a dureza do mármore
Sem dó
Corrói
e aniquila.
És o menestrel
das noites vagas
Hierofante, da corte celestial
Tens o brilho das estrelas,
Mas vicejas - na escuridão total.

  
TALVEZ UM DIA
ADÉLIA COSTA

Talvez quem um dia perdeu
Saiba sentir a dor do outro perdido,
Saiba encontrar o peito doído,
Que verte sem cor, chão batido.

Talvez quem um dia perdeu
Não consiga fingir que não vê:
O prurido invisível da morte
Na vida de quem envivorreu...

E quem sabe consiga enxergar
A morte em vida escondida
Naquele marejar disfarçado...
Das pálpebras distantes caídas.


Talvez quem deitado perdido esteja,
Permita ao outro o sentir...
Pois em seu sorriso amarelo,
Renega a dor do passado porvir.

Talvez o doído peito perdido,
Estanque na dor solidão...
E esqueça aquele chão batido
Com olhos de novo: clarão!

E quem sabe os olhos transbordem
Em cores e brilhos constantes...
Ribeiro de águas limpinhas:
Caleidoscorpos vibrantes!
  
  
ALMA LAVADA
JUSSÁRA C. GODINHO

Calco meus pés
no regaço
do regato.

E o colorido quente
do colo
da Natureza

aquece
o gelo
que cobre
o calor
do meu coração.

Descongela
e... 
Derretido
percorre meu ser
e...
Sem rumo e sem medida
Escorre pelos olhos.


AMOR FEINHO
ADÉLIA PRADO

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.


CANÇÃO DA ROSA DE PEDRA
ZILA MAMEDE

Essa, a rosa da promessa
da noite do nosso amor,
murcha rosa indiferente,
sem alma, escassa de olor?

Por que essa rosa de pedra,
o meu presente nupcial?
– Pantanosa flor de lama
gerada em brisas de sal.

O riso da minha infância,
gritam-no abismos de sangue
onde boia impura, incauta,
flor de pedra, flor de mangue.

A vã promessa incumprida
na noite do nosso amor
repousa em praias de sombra
navega em mares de dor.


Um comentário:

  1. imensamente feliz por expor-me aqui!!! curti " abeça " esse espalhar de poesias! obrigada...

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