ALDRAVIA - UM ARTIGO DE JOSÉ DE CASTRO

·          roda aldravia gira verso emoção rodopia: que tal se falar de aldravia?


Ser prolixo, percebe-se, é bem fácil. Ser conciso é que são elas. Existe uma corrente poética que busca essa precisão cirúrgica de saber cortar palavras na medida exata. Refiro-me aos poemas minimalistas. Dentre eles, temos a trova, gênero popular que precisa dar conta de um tema em quatro versos. Existe o milenar haicai que nos veio do oriente. Um gênero interessante, de tercetos concisos. E, bem mais novo, o poetrix, poema também de três versos, de batismo baiano há cerca de dezoito anos (1999), filho do poeta Goulart Gomes. Trova, haicai e poetrix, minimalistas de quatro e três versos.  
Aí o leitor me pergunta: e o dístico? E o monóstico? E respondo. São categorias mais de agrupamento de versos do que de poemas em si. Existem, claro, poemas de dois versos (dístico) e de apenas um (monóstico), Não muito praticados, e sem a popularidade e o charme de um haicai ou de um poetrix.
E pode existir algum gênero mais econômico do que os citados? A resposta é sim. A aldravia. Em economia de palavras, talvez ela só perca para o palavratrix (que é um derivado do poetrix), o qual, no limite mínimo, pode ser um poema de quatro palavras. Veja artigo aqui mesmo na Revista de Ouro... Saiba mais sobre o PALALATRIX.
E o que é uma aldravia? A aldravia é um gênero poético criado em Mariana/MG, no ano de 2000 (um ano depois do poetrix) pelo movimento cultural aldravista que procura, segundo seus criadores, romper barreiras e abrir caminhos mais ousados para o surgimento de novos conceitos e práticas em arte.  
O gênero foi batizado pela pesquisadora, doutora e poeta Andreia Donadon-Leal, a partir de forma poética elaborada pelo poeta Gabriel Bicalho, contando também com a participação de J.B.Donadon-Leal, todos pertencentes ao movimento aldravista.
Um dos objetivos perseguidos pela aldravia é o de conseguir dizer o máximo com o mínimo de palavras, numa concepção coerente com o posicionamento poundiano (Ezra Pound, 1885 - 1972) acerca do modo de se fazer poesia.  É um tipo de criação poética que pretende abrir novas formas de expressão que favoreçam múltiplas interpretações.
O nome deriva daquele tipo de batedor de portas e portões antigos conhecido por aldrava. Uma nova/velha forma de se bater à porta da poesia. 
Vejam algumas das principais características da aldravia:
·        É uma sextilha (poema com estrofe de seis versos);
·        Cada verso é formado por uma única palavra (versos univocabulares);
·        Não precisa de título;
·        Recomenda-se o uso de letras minúsculas nos versos;
·        Não exige métrica e nem rima (mas a rima pode ser usada);
·        Goza de liberdade temática (pode abordar qualquer assunto);
·        Recomenda-se não usar pontuação para deixar margem de interpretação livre ao leitor (mas fica a critério do autor o seu uso ou não;  por exemplo, pode, às vezes, ser imprescindível o uso da interrogação...);
·        Admite palavras unidas por hífen, bem como nomes de pessoas com sobrenomes, considerados como uma só palavra;  
·        Recomenda-se que se privilegia o poder de sugerir mais do que descrever ou relatar todo o conteúdo. Ou seja: a incompletude é inerente à provocação aldrávica;
·        Sugere-se o uso mais da metonímia que da metáfora.
Para aprofundamento sobre o gênero, sugere-se a leitura de textos na página da Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas – SPBA (http://www.jornalaldrava.com.br/pag_sbpa.htm), cuja sede é em Mariana/MG e tem por objetivo agregar os aficionados do gênero e divulgar suas produções, inclusive artigos. A SBPA já publicou quatro antologias de aldravias (Livros I, II, III e IV das Aldravias, pela editora Aldrava Letras e Artes, bilíngues, lançados aqui e fora do país.)
Observem, portanto, que a aldravia é um poema bem econômico: aquele que consegue expressar ou fazer uma provocação ao leitor através de seis palavras apenas.
Há quem possa achar que, por isso, se trate de um gênero fácil. Ledo engano, pois é fácil empilhar seis palavras, mas torna-se difícil arrancar delas um efeito poético inusitado, dizer algo que surpreenda e encante o leitor em espaço tão reduzido. Para isso as palavras precisam ser bem escolhidas, sequenciadas e ritmadas de maneira a formar um nexo conciso portador de singular expressão poética (polissêmica, preferencialmente).  
A esse respeito, recomendo a leitura de um artigo que publiquei no Recanto das Letras, sob o título de Pra não dizer que não falei de aldravias... http://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/publicacoes/editor.php?acao=ler&idt=3987518&rasc=0
Seguem-se alguns exemplos de aldravias:
1.
amores
perfeitos
so
   mente
em
flor
(Andreia Donadon-Leal, in O livro II das aldravias. Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2013)
2.
entoa
canção
chorosa
lenta
chuva
outonal
(J.B.Donadon-Leal, in O livro II das aldravias. Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2013)
3.
floresta
resta
esta
flor:
vitória
régia!
(Gabriel Bicalho, in O livro II das aldravias. Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2013)
4.
solitárias
verbenas
buquê
de
saudades
apenas
(José de Castro, in O livro II das aldravias. Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2013)
Curiosamente, os exemplos de aldravias aqui têm um quê de haicais, pois versam sobre temática ligada à natureza. Mas foi apenas coincidência na escolha (a coletânea traz uma infinidade de temas versados por inúmeros poetas de várias partes do país e do mundo).
Vejam, por exemplo,  essa aldravia que publiquei no Livro III das Aldravias (Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2015:
menina
espoleta
teu
beijo
pimenta
malagueta

E esta outra, do Livro II das Aldravias (Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2013):

jogo
do
bicho
deu
zebra
amor

Lanço um desafio ao prezado leitor: busque palavras poéticas para produzir aldravias. Tente, invente, ouse, extrapole, brinque, experimente. Temática político-social, lírico-romântica, filosófica ou humorística. Limitação: use apenas seis versos univocabulares. Com sabor máximo a se degustar. Boa sorte: vamos todos, agora, aldraviar?

Pois, como digo:
“Asas/aldravias/voam/leves/versos/poesia...”
Voe comigo.   
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*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Membro da Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas – SPBA. Participa da SPVA/RN e da UBE/RN. Autor de “A marreca de Rebeca” e “Vaca amarela pulou a janela” (infantis), e de “Quando chover estrelas” e “Apenas palavras”, dentre outros, inclusive para adultos. Contato: josedecastro9@gmail.com

LEITURAS RECOMENDADAS

BICALHO, Gabriel. Caravela – redescobrimentos. Brasília: Ministério da Educação, 2006. 

CASTRO, José de. Quando chover estrelas. Natal: Jovens Escribas, 2015.

FABRE, Mardilê Friedrich. Entardecer com aldravias. São Leopoldo/RS: Oikos, 2015.

LEAL, Andreia Donadon; BICALHO, Gabriel; FERREIRA, J.S.; LEAL, J.B.Donadon. (Organizadores.). O Livro II das Aldravias. Tradução e adaptação  para o Espanhol Begõna Montes Zofío e AndreiaDonadon-Leal. Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2013.

LEAL, Andreia Donadon; BICALHO, Gabriel; DONADON-LEAL, J.B. (Organizadores.). O Livro III das Aldravias. Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2015.







Um comentário:

  1. A gente só tem a ganhar ao ler o poeta e mestre José de Castro, eu que sou uma aspirante, amante da poesia, me sinto tão impotente ao ler e me ver como é preciso aprender. Ainda bem que existe pessoas que são humanas e cheias da viva poesia que sabem mas são humildes e nos ensinam, tem o prazer de que mais que criticar, construir. Paula Belmino

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