RELÍQUIAS ♣ UM POEMA DE LEOCY SARAIVA EM HOMENAGEM À CIDADE DO NATAL

Imagem • Evaldo Silva

O cuspe no chão
me manda ir
de volta à primeira página
ao primeiro tijolo de mim:
vou ao meu primeiro olhar
faminto em direção ao bolo,
à confusão instalada
entre o não e o partir.

Vou até a minha culpa
Máxima, múltipla, se existir
Vou atravessar a baía que me reparte
e buscar a hora em que maldisse os deuses
pra comer o pão amassado
pelo diabo da arte

vou sair a nado pra Redinha a partir do farol
passando pelas velhas vacarias do Tirol
vou desembestar na Cordeiro de Farias
descer a ladeira
vou ao gozo, vou às partes baixas, ao mangue, ao cais,
vou à Ribeira dos cabarés

Subo ao beco,
buscar lama, aliviar os pés
vou me debruçar nos janelões da Junqueira
e entre as valas do adeus e as velas da catedral
vou me ver passar para o Grande Ponto final.
Vou subir ao vento num pedaço de jornal
Ver Natal! Aterrisar para escavar meus mortos
no Alecrim. Encher as unhas com o pó da história.

Vou ao início das perdas, à perda da glória
Vou à primeira pedra do meu rosário
Vou ao fim da festa
Passo no meio das pernas
da dama sem nome que me pariu.
Antes que cupins me comam
na Dr. Barata
- e o cuspe seque -
volto à Belle Époque
Vou agora mesmo.
Partiu...


LEOCY SARAIVA


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