POETAS DO RASCUNHO 1ª EDIÇÃO

1ª coletânea dos poetas do grupo RASCUNHO DO RASCUNHO

Nesta edição com a participação dos Poetas PAULO MIRANDA BARRETO
CRISTHINA RANGELDAVID MOURACLAIRE REGINA FELIZ MARISA SCHMIDTRAIMUNDO LONATO e NILSON VIEIRA MORENO
Créditos • Arte de Radyr Gonçalves • HI3

REPETIDO
NILSON VIEIRA MORENO
meu soneto será a fotografia
do cara que repete a cara feia
pingando lento, cá da minha veia
pra folha de papel. e todo dia
repito esse processo, todo dia
o mesmo movimento se encadeia:
dou meia volta e volto, volta e meia
ao ponto de onde a pena partiria
se escavo a fossa afunda, nunca acaba
e lá no fundo o mundo me desaba
a mágoa inunda o nada na cabeça
soneto me assimila o sem sentido
simula e me reflete repetido
registra pra que eu lembre ou que me esqueça


SEI
RAIMUNDO LONATO
(Sei quando e como foi).
Lembro-me das palavras
estacionadas na boca.
Sobrou o sabor do papel
poupado para escrever
a música que teima
tocar no meio da noite.
Sei do incontornável
e do arrependimento
nas portas da casa.
Sei das janelas por onde
decidimos ver a metade
do tempo em desacerto.


ESTIAGEM
MARISA SCHIMIDT
Se hoje a lua viesse
e você no porto estivesse
trazendo-a nua na mão
ou se abrisse um botão
da rosa quase esquecida
ou se houvesse outra vida
reescrevendo a canção
eu declamaria um poema
faria uma cena de cinema
em que você fosse o galã
e jamais despertaria do sonho
que toda noite eu componho
para que não haja amanhã...


A SENDA
PAULO MIRANDA BARRETO
 •

No final da vida
da lida, da estrada
da linha que finda
no fim da picada

tudo se desvenda. . .
Nada leva á Nada
Para além da lenda
a Verdade brada

Lá ninguém duvida
da Alma lavada. . .
Entrada é saída
Partida é chegada

Retirada à venda
reluz desvendada
a infinita Senda. . .
nada dá em Nada.




VALORES INFUNDADOS
DAVID MOURA
"E pasmo de que, sendo um Satanás,
Com tinta faças o sinal da Cruz!"
                                     BOCAGE

Dissecarei teus vícios e mazelas
Co’a precisão das lâminas fatais,
Pois eu já consegui provas cabais
Contra as podres mentiras que revelas!
Se a multidão te escuta enquanto vais
Desfilando o teu rol de frases belas,
É porque desconhece que estão nelas
Os horrorosos gritos dos boçais!
Giras como um inseto moribundo
Em doidos rodopios alternados
Às voltas do que finges ser teu mundo:
És só um caso a mais de alienados
Que culminou com teu amor profundo
Por todos os valores infundados!


ABORTO
CRISTHINA RANGEL
Eu queria fazer uma poesia
mais o que eu tinha
era um amontoado de cismas
E a lembrança do meu filho morto
Eu sentia um alvoroço
Como se todas as dores fossem minhas
E eu mentia em cada palavra
Omitia a ânsia, a agonia
O nojo de tanto sangue
Que passou por minhas mãos
Deixando minha alma fria
Eu sentia um caroço na garganta
E essa voz que eu canto cantaria
Se não fosse apenas mais mentiras
Não tem larara nem melodia
Outra qualquer que faça rima
com os meus olhos vermelhos
Com as minhas mãos trêmulas
Ah com essa queixa que não cede
Não dá espaço para sonhos tolos
Não dá espaço pra vida
Que não vingou em mim ir embora
Às vezes falo de querubins
Engano as letras e as falas
Com essas mesquinharias
Defendo nada, nada me absolve
Às vezes na mente envolvo
O corpo morto, pequeno, insignificante
Sem nome ainda, e aqueço a alma
Tiro-a do purgatório
Faço outro roteiro e finjo
Finjo olhar nas alturas,
Luas e estrelas e pássaros, aviões
Nada altera a memória, a matéria crua
Da violência que me tirou
As formas arredondadas
E me disseram que eu era poeta
Mas não, não era verso
Era o avesso de mim
Era a cara da minha dor
Era luta e luto frente a frente
Era apenas um espectro
Que ardia na arte circunspecto
Calando o mote e a morte mais profunda.


O SOL
CLAIRE REGINA FELIZ
O sol
O sol sabe que é rei.
O sol sabe que até deus ele já foi.
Mas o sol tem uma grande tristeza,
para ele, um erro da natureza:
embora a luz seja sua,
ele nunca vai saber
o que é um luar.


Um comentário: