RABISCOS DA TARDE ♣ UM CONTO DE JOSÉ DE CASTRO



         As marés preguiçosas costumam lamber meus pés em tardes de abril. As sombras se espicham pela areia e aspira-se um quê nostálgico de outono.  Caminho ao sabor do vento, compartilhando uma espécie de solidão com tantos outros que, feito as marés, vão e vêm e deixam rastros molhados no espelho da praia. Marcas que duram poucos segundos. E novos desenhos vão sendo feitos e consumidos, lambidos pelas águas do mar.

         Sinto-me um pássaro com asas nos pés, tal a leveza do passeio. O sol dessa hora meio mágica tinge o horizonte de amarelo e rosa. Sabedoria e amor. Barcos solitários repousam sobre as ondas em suave balanço. Uma gaivota recorta o horizonte sem deixar nenhum vestígio de sua estrada. Apenas uma silhueta que se desloca. A praia se veste e se despe de rendas, brancas espumas se desfazendo em raiados geométricos.

         O vento traz-me um cheiro de sargaços. E lembranças. A nossa última conversa. Aquela despedida. Você estava tão linda e ao mesmo tempo tão triste que eu não sabia o que lhe dizer. Lembro-me ainda hoje que não houve nenhuma promessa entre nós. Apenas o marulhar das ondas, o mesmo som de agora, de um mar que vai e vem, como que nos confirmando que a vida é fluxo e refluxo.

         Aperto o passo, pois a noite já começa a ensaiar as primeiras estrelas. É nessa hora que a solidão gosta de assobiar canções e preparar mistérios em sussurros de vento.

         Eu queria te prender nos meus braços. Mas você parecia aquela gaivota que se esvaiu no horizonte ainda há pouco. Sem deixar rastros. E permanece como lembrança que jamais se apaga. Tudo o que é triste parece durar uma eternidade. O que importa agora? Não me arrependo de nada. Sei que tivemos momentos felizes. Pequenos momentos que pensávamos que durariam para sempre. Mas, no fundo, bem no fundo, cada um de nós sabia que não era bem assim. E agora, entendo que não adianta a gente querer se enganar. Tudo acontece exatamente como tem que ser. Seja alegria ou tristeza.

          E a noite chega. A primeira estrela solitária ensaia o seu brilho. Hora de retornar para casa. Sei que haverá um vazio ao abrir a porta. Haverá um silêncio me abraçando e fazendo eco dessas lembranças que as marés não conseguem apagar. Tua ausência, apenas a tua ausência, hoje mora comigo.

PS. Ao chegar em casa, havia uma carta dela, com selo de Dublin. Ainda não tive coragem de abri-la.

JOSÉ DE CASTRO*


*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Mestre em Tecnologia da Educação. Autor de livros infantis (A marreca de Rebeca, O mundo em minhas mãos, Poemares, Poetrix, Dicionário Engraçado, A cozinha da Maria Farinha. Poemas Brincantes, Vaca amarela pulou a janela). Contato: josedecastro9@gmail.com


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