POETAS DO RASCUNHO • 2ª EDIÇÃO

Poetas do RASCUNHO... Nesta edição com CLAIRE FELIZ REGINA, LILLY ARAÚJO, JARBAS SIEBIGER, VALDECI ALMEIDA, WASIL SACHARUK e TIM SOARES

ENCONTRO DE GERAÇÕES
CLAIRE FELIZ REGINA

Eu queria fazer versos
como os poetas novos fazem
mas sou de outra geração.
Não faço versos inventados.
Só versos do coração.
Eruditos, trabalhados
como os que eles fazem,
não sei fazer.
Eu rimo ão com ão, rimo sim,
e também rimo sim com mim.
E as vezes até sim com não.
Sem me importar com quem vai ler.
É esse é o meu jeito de falar.
Esse é o meu jeito de ser.
Meus versos envelheceram comigo.
Falo muito de tristeza,
raramente de beleza
e nunca falo de amor
Já falei muito, mas não falo mais.
São coisas que pra mim já ficaram pra trás.
Minha vida até poderia ser rica por tudo que já vivi,
ou por tudo que ainda vou viver.
Mas até este poema
para dizer o que sinto é inapto,
se olho para o futuro vejo pouco,
o presente passa rápido
e do passado, já me esqueci.
Fazer versos na minha idade
É heresia
É ilusão
Esta e a minha poesia
Esta é a minha solidão.
Este seria o fim do meu poema
Se eu não fosse à pessoa que sou,
tenho muita alegria, sou feliz, sou POETA.
E poeta, quando quer, sabe mentir, sabe fingir
e até inventar.
E este é o meu primeiro poema inventado,
que eu fiz, só pra causar. (brincadeirinha).


ESTRELAS TE VIGIAM ABISMADAS
WASIL SACHARUK

aceita-te assim
bicho selvagem
sem maldades
nenhuma bagagem
nenhum controle
aceita também
as tuas metades
o desgaste dos ossos
do teu ofício
os excessos e os vícios
o tesão e as vaidades
aceita o sacrifício
que demandam os ritos
e outras tolices
abraça as crendices
mesmo que nelas
não creias
aceita que estrelas
te vigiam abismadas
ora brilhantes
ora ofuscadas
elas te julgam
pela tua inocência
aceita a falsa ciência
dos que falam de amor
ocitocina adrenalina
borboleta e flor
que tanto dizem
sem nada explicar
aceita a falta de ar
os ditames da dor
a vida corroída
a comida estragada
as águas que sanam
transportam venenos.


BAGAGEM
VALDECI ALMEIDA

pra onde vou ir
com essas quarenta e tantas pedras?
incumbe-me levá-las
e quem
uma esperança líquida
o descanso
a distância
entre uma e outra
mas devo levar todas
nos ombros, costas, joelhos, coração...
toneladas cada
todas juntas
uma ilha
na desilusão.


DESVENTURAS ORTOGRÁFICAS
TIM SOARES

O que será dos sujeitos
Se o futuro do pretérito
É mais que imperfeito?
O que será dos eus, tus, e eles
Se os artigos são artigos
Em falta nas prateleiras?

O que será dos verbos verborrágicos
E dos predicados cada vez mais precários?
Dos conjuntos de conjunções
E dos pronomes que dão nome
Às propriedades garantidas
Pelo verbo ter?
O que será dos substantivos

Agora tão subjetivos
E das metáforas sofrendo
Metamorfoses desvairadas?
O que será dos hifens
Que insistem em separar?
Dos ditongos, dos tritongos e das oxítonas
Passando por hiatos seculares?
E o que será dos plurais cada vez mais singulares?


DESIDERATO
JARBAS SIEBIGER

Ars una, species mille

Refestelam-se em retretas
As mais abortadas letras
Mal-acabadas feito feto
Com quais penso me poeto

Septicêmicas vão, destarte
Contaminando o meu ócio
Engrandecem-me ao bócio
Fraudando o valor da Arte

Com a incúria se lambuza
Vá com quanto mais sanha
Artífice do Nada ao pote

A Alma se revela obtusa
Em verso a visão bisonha
Eis a Ignomínia — meu dote!


A CONTA
LILLY ARAÚJO

Depois do último gole,
e refeita do último trago,
eu titubeio por entre o salão
rumo à porta de saída.
A música tortuosa e em descompasso
afugenta-me os pés, já trôpegos demais
para uma última dança.
Pago a conta.
E no caminho, entre o caixa e a sarjeta,
tropeço em lábios quaisquer.
Limpo os olhos,
na certeza do rímel escorrido,
pergunto sobre uma esticadinha
subentendido por um sorriso cínico.
Sigo o ritmo que já nem ouço,
e nem é preciso, pois o sei de cor.
E entre um strip-tease de quinta,
e um sexo de sexta,
eu apenas engulo tudo e pago a conta.
Eu sempre pago a conta.


CARPE DIEM
HELEN PRIEDOLS

aproveite o dia
me dizem
antes que cheguem a diabetes
a pressão alta
o reumatismo

aproveite o dia
publicam nos jornais
enquanto os homens do poder
matam criancinhas

aproveite o dia
me ordenam
e eu sigo regando meu jardim
conforme aniquilam as florestas

aproveite o dia
gritam nas esquinas
porque a morte devora tudo
e eu me angustio
com os poucos números do relógio


aproveite o dia
ensinam os outdoors
e eu aqui sentada rabiscando poemas
tomando café
e catando pulgas no gato
sem saber se amanhã
o mundo acaba

3 comentários:

  1. Obrigado Revista de Ouro, obrigado Radyr Gonçalves. Bom mesmo estar entre esses talentos

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  2. Falar de poesia é lindo. Estar dentro desta revista que fala de poesia é mais lindo ainda. Comovida. Obrigado Radyr.

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