SETE POEMAS DE CEFAS CARVALHO


PESO

de cansaço
em cansaço
envergo-me

nem de aço
nem de ferro...
(enxergo-me

aos pedaços)

não grito
nem berro
silencio

do fruto,
o bagaço
regurgito

(de cio
em cio
copulo
e reproduzo

aflito
vazio
me anulo
e acuso)

  
ÓBIDOS


na hora
do sepulcro
nem choro
nem vela

fecha essa
janela
e bebe essa dor

como um licor
que não adoça
nem  embriaga

desembainha
essa adaga

arranca do
peito
essa erva
daninha

desbota essa
aquarela
e faz do pincel
corda e laço

(nem douro
nem caravela

da minha cela
o que vejo

um mau agouro
no azulejo)
  

LITORÂNEO


era assim
o vento quebrando
o tempo urdindo teias
e espinhos
era assim
pérolas aos porcos
navegações, lemes
cavalos marinhos
eram rochas insones
conchas, corais
sombras de lua
nos areais
uma nau embriagada
em meus pesadelos
e nada mais

  
ATLÂNTICO


naufrago minhas naus
em poças d´água

com paus e pedras
lamentos e quebrantos
dilacero as mágoas

espero na carne
os unguentos
os emplastros

iço as velas, subo ao mastro
navego em mar abissal
em oceano alumbrado

(nego o sacro e o profano

cego e embriagado de sal)
  

AS COISAS


as coisas que me disseste
como quem cospe peçonha
espargindo a esmo a peste
cobrindo-nos com vergonha

as coisas com que me feriste
revestidas todas em fel
encolerizada, dedo em riste
do templo, rasgando o véu

as coisas que me lançaste
aos gritos, enlouquecida
rancores, ódio, desgaste
dissolvidos em formicida

as coisas que me pediste
como quem pede clemência
entre o desespero e o triste
a um passo da demência
  

NÃO SOBRE A FÊNIX


não renasço 
das cinzas

sou as próprias

carbonizado
sentenciado
ao pó retornar

de eterno retorno
em eterno retorno
além do bem
e do mal

insone, imberbe
sacrificado
em um altar de sal


QUASE-AMOR


Falas de desejo
Como quem arde, carboniza...
Como a louca sacerdotisa
Do culto ao Quase-amor...

Falas de paixão
Como quem se imola na fogueira...
Como a febril feiticeira
Do templo ao amor partido...

Falas de loucura
Como quem derrama vinho em vão...
Como a vestal do amor pagão
Da seita do amor proibido...

Falas de poesia
Como Cecília, como Florbela...
Como a desvairada sentinela
Da catedral do Quase-amor...


CEFAS CARVALHO




Cefas Carvalho é escritor, jornalista e poeta. Nasceu em São Paulo, em 1971, mas, mora em Natal (RN) "desde sempre". Tem 6 livros publicados, os romances "Ponto de fuga", "Três", “Carla Lescaut”, “Os olhos salgados” e mais "Encontos e desencontos" (histórias curtas), e "Reinvenções" (poesia), além de 15 folhetos de cordel lançados. Foi coordenador do Concurso de Poesia Zila Mamede e atualmente é editor-chefe do Portal Potiguar Notícias e da PNTV. Milita no cenário cultural de Natal, fazendo parte do grupo Samba – Sociedade de Amigos do Beco da Lama de Adjacências, que luta pela revitalização da cultura e boemia do Centro Histórico de Natal. 



Um comentário:

  1. Me encantei na leitura de "Olhos Salgados" de sua autoria e agora amei cada verso seu exposto aqui. Parabéns por ir do Romance a Poesia sem perder o tino.

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