Os dias eram assim • Eliete Marry


Lá em cima da serra bem alta e gelada
às noitinhas meu pai me contava histórias de trancoso

Lá pelas tantas horas
Papai me beijava
Numa rede bem gelada e eu me deitava depois de ouvir sua voz baixinha a dizer Deus te abençoe

A noite toda eu sonhava com as histórias contadas
De madrugada acordava com as suas mãos quente me pondo outro cobertor

Lá na serra às cinco da manhã o cheiro do seu café invadia as cortinas do quarto
Da rede eu pulava de pé pra comer e ganhar seu abraço

Lá no pé do fogão eu me esquentava ouvindo suas cantorias de amanhecer tocadas pelos repentistas do sertão.

Lá na serra os dias foram de alegrias mas também de tristezas
Quando era seca ele partia e nos deixava na frieza

Saia sem rumo, tudo era incerteza, às vezes, cavava açude
Desbravava matas, abria estradas, tudo isto pra não faltar pão a mesa

Lá na serra os dias eram assim, dormia-se ao contar de grandes histórias
Acordava-se com cheirinho de café e ao cantar da viola
Eram uns dias de tristezas e outros de vitórias


Papai do céu eu te peço demore bem muito a levar papai da terra para a tua morada!

Eliete Marry

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