O QUE É SER POETA HOJE

Um texto do Poeta português EMANUEL LOMELINO

EMANUEL LOMELINO, nasceu a 29 de Janeiro de 1972 em Camarate, membro activo em diversos eventos literários, apresentador, prefaciador, coordenador.
Mentor do projecto, multiplataformas, de divulgação de poesia lusófona, TOCA A ESCREVER
Tem 7 livros editados. Membro da Academia Virtual de Poetas de Língua Portuguesa – secção de Portugal, com assento na cadeira Mário de Sá-Carneiro.

A propósito da palestra, que me convidaram a fazer, no próximo dia 9 de Setembro, no CCB, em Lisboa, sobre o que é ser poeta nesta era digital, e enquanto meditava sobre o que falar nesse evento, dei por mim a pensar que nunca antes o termo "poeta" me soou tão depreciativo.
Longe vão os tempos em que ser poeta significava algo de distinto, digno de admiração. Ser poeta era um estatuto outorgado pelos outros e não era toda a gente que merecia ser reconhecido como tal.
Hoje toda a gente chama poeta a torto e a direito sem ter em atenção, sequer, se o que é escrito é realmente poesia. E as redes sociais vieram, também, potencializar essa banalização generalizada que hoje se observa.
Pior ainda é constatar, cada vez com mais frequência, que qualquer um se auto-denomina poeta só porque espartilha meia dúzia de frases, mal escritas e sem conteúdo algum (muito menos poético), em excertos que chama versos e "aqui vai disto que sou poeta".
Pobres mestres, da arte de poetar, que tanto deram e tanto contribuiram para a cultura e para a definição do que significa ser-se poeta. Hoje andam às voltas, perdão, às cambalhotas nas suas tumbas devido à ousadia destes cús mal lavados que se dizem poetas, sem saberem o que a palavra quer dizer nem a importância que outros, em tempos de engenho, lhe davam.
Pobre poesia que nasceste marginal e ganhaste o teu espaço e importância para hoje seres marginalizada na tua essência em detrimento dos intelectuais de vão-de-escada que, em vez de te honrarem e enriquecerem, te vilipendiam com imundície e te popularizam com verve falaciosa que vomitam dos estros secos e vulgares, onde nem a originalidade ocupa lugar.
Sim, longe vão os tempos em que ser chamado poeta era motivo de orgulho. Sim, longe vão os tempos em que se chamavam os bois pelos nomes e não era qualquer um que era considerado vate. Sim, longe vão os tempos em que ser-se poeta era um estatuto ganho pelo reconhecimento dos outros e pelos outros outorgado.
Hoje não entendo esse epíteto com a conotação original. Vejo-o quase como uma ofensa. E não creio que os verdadeiros poetas, que esta língua já deu ao mundo, se sentissem orgulhosos de ver a patente de poeta ser ostentada sem critério e serem ladeados pelos que hoje se auto-intitulam poetas. Desconfio que não lhes agradaria, nem um pouco, verem-se equiparados com quem não sabe distinguir o artigo definido com acento “à” com a conjugação do verbo haver “há”. Tenho uma ligeira desconfiança que não lhes seria fácil digerir estarem acompanhados por quem confunde “disse-se” com “dissesse”. Não me custa prever que não se sentiriam felizes por terem a companhia de quem escreve “caiem”, “saiem”, ou quem “cose” batatas e “coze” meias.
Mas tudo isto sou eu que digo porque não sou poeta... tenho é muito mau feitio. 


4 comentários:

  1. Vejo pelo contrário. Acho que todo suspiro de poesia é válido. Feio é o que é desumanidade, arrogância, egoísmo em vez de poesia. Os mestres consagrados tem seus lugares intocáveis. E são mestres entre outras por não desmerecer. Porque não precisariam enviar para o campo de concentração a geração de "poetas amor/flor"

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    1. O que vê é outra questão que nem abordei no texto. Neste, não falo da validade do que se escreve mas sim do absurdo que é existirem tantos auto-denominados poetas que não sabem escrever correcto nem, sequer, o que é poesia. Eu defendo é que a poesia não deve ser conspurcada por aqueles que: 1º Se auto-denominam poetas 2º cometem erros grosseiros e inadmissíveis, e atropelos à língua lusófona. Quanto à questão dos "poetas amor/flor", esses não deixam de ser poetas só porque, alguns iluminados, decidiram decretar que a rima está fora de moda. A poesia, seja em que estilo for, nunca estará fora de moda. Agradeço seu comentário pela abordagem que fez e por me fazer reflectir para futuros textos. Abraço luso.

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  2. O nobre Acadêmico lusitano Emanuel está coberto de razão! Será muito gratificante estar com ele no 2º Festival de Poesia de Lisboa, no dia 09.09, no Centro Cutural de Belém, pois, com muita honra, faço parte da Equipe da Helvetia Edições, promotora do rico evento. Depois darei mais detalhes.
    Parabéns pela valiosa Revista de Ouro!

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    1. Lá me encontrará... mas não um "nobre académico", não. Abraço luso.

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