O que é POETRIX? - Um artigo de José de Castro


O QUE É POETRIX

Por José de Castro*

Muita gente gosta, curte, lê ou escreve haicais, esse gênero poético milenar vindo do oriente, difundido por poetas como  Bashô (1644 – 1694) e Kobayashi (1763 – 1827) e de tantos outros sucessores espalhados pelo mundo inteiro, inclusive no Brasil (Afrânio Peixoto, Guilherme de Almeida, Millôr Fernandes, Paulo Leminski, Alice Ruiz, dentre outros).

O poetrix, à semelhança do haicai, também é um terceto. Com algumas diferenças básicas. Senão, vejamos. Reza o cânone que haicai não tem título. Poetrix tem. Haicai se fixa no tempo presente. O poetrix pode transitar em qualquer época, criar até novos tempos. O haicai segue a estrutura métrica 5-7-5, obrigatória para os seus três versos, nessa ordem. O poetrix pode ter até 30 sílabas métricas (geralmente se usa menos). E o título pode ter a extensão que o autor lhe der. O haicai deve versar sobre a natureza, sobre o tempo, sobre as estações do ano, por exemplo. O poetrix é de temática livre, pode abordar o que quiser, como quiser, usar metáforas, metonímias, surrealismo.

Mas você que curte o haicai, nem se preocupe. Pode e deve continuar apreciando-o, pois uma nova forma poética nunca mata a outra. Ao contrário, revivifica-a. Portanto, o poetrix não veio para substituir o haicai. Mas, sim, agregar um leque de possibilidades expressionais ao universo da poesia.

O poetrix foi concebido em 1999, pelo poeta baiano Goulart Gomes, que é o coordenador geral do Movimento Internacional Poetrix - MIP, (saiba mais acessando o link: www.movimentopoetrix.com.br/perfil.php) tendo lançado o livro “Trix – poemetos tropi-kais”, em setembro daquele ano.

Em 2009, para se comemorar os 10 anos do lançamento do Primeiro Manifesto Poetrix, o mencionado poeta iniciou a preparação de uma coletânea de poetrix que foi publicada em 2011 sob o título de “501 poetrix para ler antes do amanhecer”. Dela participaram 84 poetrixtas de várias partes do país, e alguns radicados em Angola, nos EUA, na Suíça e em Portugal.  

Agora, em 2017, comemora-se 18 anos do nascimento do poetrix. E, mais uma vez uma coletânea está sendo lançada no mês de agosto, no Rio e em São Paulo, também organizada por Goulart Gomes. Reúne 43 autores do Brasil, Portugal, Estados Unidos e Colômbia, com textos em português e inglês, intitulada “Antologia Poetrix 5”. 

O poetrix, desde a sua criação, vem experimentando uma grande evolução, tendo incorporado algumas variações, como o duplix, o triplix, o multiplix, o grafitrix, o acrostrix, o concretrix, o tautotrix, o palavratrix, o cruzadatrix, dentre outros. Ou seja, aos poucos, os praticantes do gênero tiveram insights que culminaram em novas possibilidades dentro do próprio cânone.

Por exemplo, é do poeta Pedro Cardoso, a criação do “palavratrix”, que é um poetrix fruto da quebra de uma palavra em três outras, com um título para lhe dar nexo. Vejam um exemplo, de autoria da poeta mineiro-capixaba Andra Valladares:

DEUS NA CRIAÇÃO DO MUNDO 
a
cor
dava

Já o duplix surge a partir da criação de um novo poetrix, de um outro autor, que dialoga com o poemeto original, mas que precisa da autorização do primeiro autor. O triplix é um terceiro poetrix que vem se incorporar ao duplix.  E o multiplix, um quarto poetrix que fecha o ciclo, sempre de autores diferentes. Esses poemas permitem leituras na vertical e na horizontal. Cada um dos poetrix que integra esse conjunto precisa ter vida própria. E precisam dialogar entre si, complementando, ampliando ou suplementando o outro.

Um exemplo de duplix:

SINTONIA / LAR SINGELO
No lar do enamorado / feito cálice aberto ao céu/
Do joalheiro do barro / surgem troncos de sonhos /
Amor se faz / inaugurando eternas primaveras. /
(Tânia Souza / José de Castro)
Observe o uso de cores para diferenciar a produção dos poetas. Cada um desses poetrix têm vida própria e podem ser lidos de forma isolada, na vertical. Mas o duplix sugere uma leitura na horizontal, cada verso sendo continuação e ampliação do outro. (Quer arriscar um triplix? Basta criar outro poetrix, com novo título, que venha a encompridar os versos já existentes. Mas o seu poetrix precisa valer também de forma isolada).
Apesar de permitir até 30 sílabas métricas, um dos principais propósitos do poetrix é o de ser minimalista, ou seja, dizer o máximo com o mínimo de  palavras. Além disso, pode romper estruturas, brincar com as palavras, sugerir, ousar, revolucionar. Enfim, subverter a linguagem.
Outro detalhe. Lembre-se,  mencionamos  que o haicai não tem título, exceto o haicai Guilhermino (mas aí já é uma outra história, para outro artigo). Já o poetrix deve e precisa ter título. Sempre. E o título pode ter o tamanho que o autor quiser. Muitas vezes funciona como uma espécie de primeiro verso. O título, geralmente, dá o mote para o poema, os versos sendo uma espécie de continuação, desenvolvimento e desfecho da ideia lançada.
Portanto, um bom poetrix precisa  inovar,  explorar a riqueza da linguagem poética, causar espanto ou alguma forma de incômodo. Se não for assim, não cumpre bem o seu papel de “estranhamento”, surpresa e encantamento.
Percebe-se também que o poetrix permite falar de tudo, de muitas maneiras, com toda a liberdade que a poesia favorece, plena de magia e alumbramento. Por suas características bem peculiares, esse gênero poético possibilita o descortinar de horizontes promissores para o exercício criativo de parcerias poéticas, inaugurando o poema colaborativo com seus duplix, triplix e multiplix mencionados. Alimenta todos aqueles que querem ousar, inventar, recriar e fazer da palavra uma ferramenta a serviço da sensibilidade, da emoção, da transformação. A palavra como semente da reflexão crítico-criativa, satírica, onírica, bem humorada, divertida, alegre, surrealista, sensitiva. O poetrix permite o recriar de uni-versos, versos únicos, singulares. Um singular que se pluraliza e que nos faz co-criadores de um mundo em contínua transformação pela força do verbo. No princípio era o verbo… e o verbo se fez pó-e-trix. E houve mais luz, mais cor, mais alegria. Poiesis, poesia.
Veja alguns exemplos de poetrix:

EROS 3
a lua num apogeu de gozo
pleno de moça
até um segundo virgem.
(Edilberto C. Santos, in Fagulhas poéticas, Praia Grande/SP:Editora Literata, 2011. p. 20)

cumplicidade
eu e Frida Kahlo
a mesma dor sofrida
o mesmo calo
(Gilvânia Machado, in 501 poetrix para ler antes do amanhecer. Lauro de Freitas/BA: Livro.com, 2011. p. 111)

graal
meu corpo
cálice sagrado
arca da aliança
(Goulart Gomes, in 501 poetrix para ler antes do amanhecer. Lauro de Freitas/BA: Livro.com, 2011. p. 114)

sutilmente
na tua orelha,
de sussurros
brinco...
(José de Castro, in 501 poetrix para ler antes do amanhecer. Lauro de Freitas/BA: Livro.com, 2011. p. 133)
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*José de Castro é jornalista, escritor, poeta. Membro da SPVA/RN e da UBE/RN. Participou de várias coletâneas de poetrix, como os já mencionados livros “501 poetrix para ler antes do amanhecer”, “Fagulhas poéticas - poetrix”, “Fagulhas Poéticas – Vol. II – Poetrix”, “Antologia Poetrix 5” e o livro solo “Poetrix”, destinado ao público adolescente, publicado pela editora Dimensão (BH, 2012), o qual foi escolhido pelo MEC para constar no Programa Nacional de Biblioteca da Escola – PNBE, com distribuição gratuita para a maioria das escolas públicas do país, com uma tiragem superior a 30 mil exemplares. Contato: josedecastro9@gmail.com
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LEITURAS RECOMENDADAS
CASTRO, José de. Poetrix. Belo Horizonte: Dimensão, 2012.

FERNANDES, Millôr. Hai-Kais. Rio de Janeiro: Nórdica, 1986.

GOMES, Goulart. Trix – poemetos tropi-kais. Salvador/Bahia: Pórtico, 1999.  


_______________. Antologia Poetrix 3. Lauro de Freitas/BA: Livro.com, 2009.

_______________. 501 poetrix para ler antes do amanhecer. Lauro de Freitas/BA: Livro.com, 2011.
_______________. Antologia Poetrix 5. São Paulo: 2017.

LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

MACHADO, Gilvânia. Fagulhas poéticas – poetrix. Praia Grande/SP: Editora Literata, 2011.
__________________. Fagulhas poéticas – vol. II – poetrix. Praia Grande/SP: Editora Literata, 2013.

MARTINS, Jarbas. 44 haicais. Natal/RN: 8 Editora, 2014.

OLIVEIRA, Lívio. Pena mínima – haikais & poemas curtos. Natal: Sebo Vermelho, 2007.
_______________. Cais natalenses – 101 haicais. Natal/RN: 8 Editora, 2014.



3 comentários:

  1. Amei a aula. Aprendi bastante , falta por em prática

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    1. Amiga... Você vai tirar de letra... E poderá criar belos poetrix... Mãos na massa... Abraço carinhoso...

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  2. Suspiros poéticos /// haikais, // poetrix,// pingos d'alma ///. Excelente explanação, poeta José de Castro. Abraços poéticos.

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