Meu Pai • José de Castro


Meu pai me lembra pé de moleque, igreja Metodista,
bicicleta, triciclo, urinol, balaio e capotão pesado
para enfrentar um frio que só tinha
de noite, ou bem cedinho,
naquele inferno de Governador Valadares.
Era sempre um cantarolar embutido, um ramerrame,
como se fosse uma novena, apesar de ser crente.
E me lembro que discutia com o irmão Orozil,
meu tio,  cabo da polícia, que acreditava em reencarnação
e bebia muito, vermelho como ele só.
Meu pai acreditava em Deus, mas nunca acreditou
que o mundo rodava.
“Se a terra girasse, aquele quadro ali – apontava pra parede onde tinha
um quadro `Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere` – `
daqui a pouco estaria ali do outro lado.”
E prosseguia mostrando outros exemplos, como o quadro

Os dois caminhos”, em que havia uma estrada larga, cheia de
bares e diversões, que levava ao inferno.
E outra, estreita, íngreme, com um leão rugindo ao final,
bem no portão da entrada do céu.
Meu pai alisava sempre a Bíblia surrada que levava
no bolso de trás, o coldre de sua arma predileta.
Só ando armado”, dizia. E pra cada pessoa sacava um versículo.
Honrarás pai e mãe para que te prolongues os teus dias sobre a terra.”

Ele pregava com fé e era chamado para fazer orações de cura.
E gostava de me exibir, menino mirrado,
que sabia ler a Bíblia em voz alta:

 “Ainda que eu ande pelo vale da sombra morte
 não temerei mal algum, porque Tu estás comigo.”

Um dia, me lembro, levei uma surra porque havia saído de casa
para brincar com o filho do Pastor Jorge, no Instituto Rex
(“et lux in tenebris lucet”, dizia o dístico do colégio que ficava
 bem no meio da zona boêmia da cidade,
pois a luz tem que brilhar nas trevas).
Nunca entendi a surra que levei
e nem porque meu pai uma vez foi colher café lá no Paraná,
na casa de sua filha mais velha (a irmã que eu nunca conheci,
filha do primeiro casamento dele... A mãe dela, muito nova,
talvez morta de parto).
Lá ficou um tempão junto com meu irmão que hoje já está no céu...
Lembro-me do sabor do jiló com arroz e feijão que minha mãe
fez para celebrar a volta do meu pai. Um gosto doce-amargo de
um tempo em que criança era criança sem computador e só tinha
novela de rádio para embalar ilusões nas ondas da Mayring Veiga
e Jerônimo, o herói do sertão.
Meu pai acreditava apenas em duas vidas: uma aqui e outra que podia
ser no céu ou no inferno. Não acreditava no purgatório e nem
na reencarnação. Criticava os altares das igrejas católicas. Dizia:
“Não terás outros deuses diante de mim.” – e sacudia a sua Bíblia no ar.
Imagino-o junto ao meu irmão mais velho e à minha mãe, cantando hinos no céu:
“Finda a lida terreal quando já do rio além,
Nessa vida gloriosa me encontrar,
Sei que lá meu Redentor, sorridente eu hei de ver...”

(Agora, me ocorre que talvez ele tenha ido  ao Paraná
 para nunca lhe faltar uma caneca de café forte,
daqueles que minha mãe sabia fazer.)
Hoje, deve estar comendo angu, pois
todos os dias tinha que ter no seu prato.
Será que no céu, aos domingos, também tem frango com quiabo?
Sua voz forte e um cutucão me acordavam na manhã fria de Valadares:

- Levanta, menino, vai comprar pão na padaria Lopes! 
Pai é aquilo que a gente lembra sempre, mesmo sem ter conhecido direito.

José de Castro



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