Meu amigo, meu velho • Helvio Lima


Ele veio da Estação Sobradinho. O pai ficou. Vigia noturno na estação e no plantio de melancias. Com a mãe Maria, os irmãos José e Laudelina, veio para Uberlândia nos anos trinta ainda. Primeiro, morou na Santos Dumont, depois na Princesa Isabel. Que foi dura a sua vida, foi. A cidade ficava longe da família lá na roça. A ausência maior era da Dindinha, a avó, cega e lúcida, lindamente presente com seus mimos/conselhos ao neto querido.
Começou cedo no trabalho porque o pai se fora logo em prematura ausência. A mãe, na lavação e passação de roupas, por não saber ler nem escrever, anotava a carvão, nas paredes da sala, sua contabilidade. Numa tipografia começou um ofício, não gostara. Na construção civil, pintura de paredes, encontrou o seu caminho. Ao lado de Ido Finnotti aprendeu a profissão que desenvolveu pela vida afora. Cheguei a ver lindos cavalos e a figura humana que ele lindamente desenhava.
O meu avô, João Antônio, homem trabalhador, garantiu moradias para os três filhos. A mãe educou os três com objetividade, rigidez e sabedoria, e todo mundo andou direito, deu gente!
Daquele sorriso largo e fácil comunicação do meu pai, só saudades. Iracy, a extrema simplicidade de um homem verdadeiro e sincero. Exímio pescador de bagres e jogador inveterado de truque estava sempre rodeado de amigos. Corajoso ao extremo, enfrentou alturas ao pintar a cúpula da Catedral de Santa Teresinha, naquele tempo a edificação mais alta da cidade. Lembro bem desse episódio e me faz bem lembrar.
Quanta honra ter sido filho deste homem gigante, imenso no carinho e no devotamento aos filhos. Nunca presenciei nesta figura impar qualquer ato infeliz à esposa ou aos filhos, falar mal de alguém ou armar qualquer situação que pudesse prejudicar uma pessoa.
Em noturnas tempestades ou noites frias de inverno, vinha meu pai agasalhar-nos, nas habitações modestas mas plenas de amor. Ao enfrentar as enfermidades dos herdeiros, quase adoecia junto, e extremava-se em cuidados e sacrifícios para o imediato socorro apesar dos parcos recursos dos humildes.
Se um grande amigo sofrera um trágico final nas águas do rio Uberabinha, era o meu pai herói, o primeiro a mergulhar para resgatar o corpo. Lembro de um destes episódios na morte no rio de seu maior amigo, o Telmo. Virginiano, perfeccionista e cuidadoso sabia cultivar os amigos e guardá-los no peito com as benesses de sua presença cativante.
Hoje, mesmo em situações diferentes, tento ser um pouco Iracy de Lima ao relacionar-me com a minha família e com todas as pessoas que me cercam! Exemplo tive, dos bons. Às vezes sou como ele, escrito, um pouco ingênuo. Carrego extrema simplicidade ao acreditar nas pessoas à primeira vista e depositar nelas confiança entregando-lhes minha sincera amizade, mesmo sabendo que o tempo pode me reservar surpresas.
Era o meu querido pai, o meu velho amigo, fiel e verdadeiro, cuja voz e risada em altos brados doces lembranças me trazem e isto dói... Mas, reservo a esperança que um dia a gente ainda se encontre, meu coração me diz. Um beijão meu pai Iracy, agora são seus os dias azuis, os bagres, as paisagens mais lindas na beira do rio, me espere!



Helvio Lima . véspera do dia dos pais . agosto 2017 .

Um comentário:

  1. Caro amigo Radyr Gonçalves, sinto-me bastante honrado com a publicação do texto sobre meu pai que acabei de escrever. Parabéns pela excelente Revista de Ouro, um manancial de arte e cultura que já compartilhei para que todos os meus amigos do facebook possam conhecer. Grato

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