MERGULHO MEUS OLHOS INSONES

(Para Mia Couto)*

Por JOSE DE CASTRO**

Mergulho meus olhos insones
na terra sonâmbula de Mia Couto.
E viajo nos cadernos de Kindzu.
Embarco na sua canoa do tempo
que veleja nos mares d’África.
Palavras soltas ao vento murmuram
as vozes dos vivos e dos mortos
por entre o vergar das palmeiras.
E rastejam seus louvores ao chão
para que a terra não envelheça.
E para que os dias acordem novos olhos
de esperança por entre os medos.
Por entre a dúvida de saber se o destino
é o desígnio que nos escapa no vão
dos dedos do horizonte e se esvai na lonjura das
horas de escolha entre o sonho e o pesadelo.
E me perco nos escritos e de novo me inauguro
decifrador dos códigos secretos das entrelinhas.
E a terra acorda da cor da corda que enforca
o texto no azul da luz que azula o feminino berço
das escritas que fogem de todos os gêneros.
E são fadas que não têm nome, nem raça e nem cor
e são, assim mesmo, feito um arco irisado em sete véus
de tristeza e beleza bailando e se despindo de mistérios.
E enlaçam América e África num desígnio
de heranças que haverão de costurar nova história.
E depois, vem o silêncio e um soprar de vento
que nos leva a querer, de novo, velejar por
novas rotas menos rotas. E sonhar o futuro de pés
desfincados da estaca da cruz, desse gólgota,
que nos exaure gota a gota o sangue a fluir de veias abertas,
num fino gotejar de silêncio nos tambores de África.
Que soem de novo os tambores por entre as páginas
que me leem, pois insone é a terra sonâmbula
que me veste de encanto e, feito noite, avança sobre mim.
E despe por dentro meus olhos com os signos
da túnica sagrada de uma África pujante de
cantos e mantras de magos que sabem o segredo
de chorar o pranto que inaugura a lágrima dos rios.
E se transforma no sal dos mares por onde navegam
os dedos magros de Kindzu se fazendo remos e
ramos das recordações do morto-vivo Taímo.
Um barco ousado em longa viagem que tem começo
e tempestade e vento, mas nunca se sabe se chegará ao fim.
Hoje, a terra sonâmbula sou eu, que também navego
sem saber onde é a foz dessa longa e insólita viagem
que se estende por entre o berço das Gerais e o flanco das
terras Potiguares. Dois rios grandes, dois rios doces,
dois continentes que me contém, que me sustém e me transbordam
de insones mistérios. E me navegam por dentro.
E multiplicam suas margens. E estendem os seus limites
para além das possibilidades do sonho acordado de serem
leitos de rio que têm a sabedoria de fazer o sertão vir a ser
o que ninguém ainda consegue vislumbrar com olhos mortais.
Hoje, a terra sonâmbula somos nós que nunca dormimos
e sempre temos o sonho de rabiscar nos cadernos da vida
as lições que a escola não quis nos ensinar.
As lições que vêm e se infiltram pelos desvãos da imaginação
dos que sabem que a palavra é o remo e a poesia é o barco
que nos faz avançar pelos mares de sempre.
Os mesmos mares que são a, cada dia, tão diferentes.
Mergulho meus olhos insones nesses mares que apontam
o destino incerto no brilho insone de estrelas despertas.
Cada um de nós é um pouco de Kindzu, um pouco de África.
Mergulho meus olhos insones numa escrita que tem
o dom secreto e a beleza infinita de jamais se acabar.
E olhos insones são estrelas de continentes novos
que precisamos, mais além, para além de tudo, reinventar.
**JOSÉ DE CASTRO, jornalista, escritor, poeta. Autor de livros infantis. Autor de Apenas Palavras e Quando chover estrelas, poemas para adultos. Membro da SPVA/RN e da UBE//RN. Contato: josedecastro9@gmail.com
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 *MIA COUTO (Beira, Moçambique, 1955...)

Mia Couto é poeta e escritor moçambicano. Terra Sonâmbula foi seu primeiro romance (1992), o qual recebeu o prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos, em 1995. É um dos mais importantes escritores do continente africano. Além de Terra Sonâmbula, escreveu também: O último voo do flamingo (2005); O outro pé da sereia (2006); A varanda frangipani (2007); Venenos de Deus, remédios do Diabo (2008); O fio das missangas (2009); A confissão da leoa (2012); dentre outros romances e livros de contos.  Existe uma publicação  que traz uma coletânea de alguns dos seus poemas (Mia Couto, Poemas escolhidos, 2016). Além disso, tem um livro para crianças (O gato e o escuro, 2008, ilustrado pela mineira Marilda Castanha). Mia Couto confessa-se um admirador dos escritores brasileiros Jorge Amado, Guimarães Rosa e Manoel de Barros, sendo que o leitor poderá observar a influência que esses autores exerceram sobre a sua obra. Uma leitura recomendável para os aficionados da boa literatura, uma escrita inventiva e que tem muito de prosa poética. Uma viagem pelo imaginário do povo do continente africano, escrito com alma e coração.  

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