DEPOIS DA CHUVA

    Um texto de JEFFERSON SANTOS 

Tal qual tacada de vento em resto de chuva;
Tal qual escorrida luz pelo asfalto (quando não pelas pedras ou pelo barro);
Tal qual a mesma luz a pinicar-me a casa e, em suas adjacências, o frio que cala fora de mim – é a minha cidade. 

Tacada em cada esquina de batimento – de gente e de carro.
Tacada conformada por fino lençol que pesa a brisa e as montanhas de areia fina.
Tacada verde que encima o rico e o pobre.
E que ainda sobre um taco de peixe e que reste qualquer camarão fora das piscinas. Ó, manguezal!

Tem um pé de castanhola na minha parada.
E no pé de castanhola uma turma de saguis.
E embaixo da tal árvore há gente – como eu – esperando.
Se eu – por um impulso de curiosidade - achar de levantar a castanhola caída no chão, hei de descobrir o mistério.
E talvez seja para isso que sirva também uma castanhola caída rente aos pés – atiçar o tino do transeunte.

Compro o bilhete. O bilhete sobe em mim.
A cidade é confirmada. Está, de fato, a existir. Também nas estatísticas.
Tá cá ou tá lá do outro lado do rio que ninguém sabe – ninguém.
Pessoas em hábito automóvel – pouco se movem.
Caixas coloridas (revestidas de telemóvel propaganda) a guardar a rua.
Vigilantes de carro pela estrada mais atrevida daquelas bandas cêntricas que desce para outros centrismos da Cidade Alta – no Além-Baldo.

Dentro do ônibus observo toda a gente desconhecida.
Que fim levaram os outros?
Meus vizinhos... O campo de futebol... As pancadas de bola no portão vindas do campo de futebol...
(Já não há vistas abertas)
E o parque de diversões? E as crianças da minha infância?
E as pessoas a tagarelar nas calçadas...
Não existem mais, a não ser na minha memória já muito minha.
Passaram porque assim tinha que ser.
E já estamos, agora, em outra cidade...
Menos colorida que aquela pintada pelas agências de turismo.
A vaidade sufoca a noiva tinta e retinta de maquilagem.
As vias separam, as facilidades complicam e a cidade morre todos os dias para outra cidade nascer... Como outra coisa que tenha que ser – e talvez sentida pelos que a habitam.

O que tem nascido do ventre dessa terra?
Solto medo e paranoia – amontadas nos menos avisados cidadãos – instalados na promessa da cidade.
Que meçam a prisão e falta de ar nas proclamadas boas paragens daqui.
Mas não há bom ar que ensine a respirar! Nem fita que meça a tacada!
Penso que seja bela e perigosa, como a vida, a minha cidade.
E assim ela é, enquanto dure.
Enquadro, em mirada, a janela de vidro – me vejo na paisagem que fica para trás.

Pela mesma janela, no banco de cima do ônibus, vejo um cachorro caminhando solto nos braços do tempo da Nona Avenida.
Para onde vão os cachorros dessa cidade?
Às vezes, vejo a Ponte Newton Navarro, iluminada na noite que sobe.
Subo a Ladeira do Sol em retorno e por alguma réstia de distração que sobra em mim, eu esqueço.
Para onde foi a atacada tranquilidade?
Estamos em noite remediada com muita luz para não ver.

Volto-me para a porta de saída.
Existem três degraus até à terra firme
(Eu estava solto nos ares, acostado nas pretensões).
Temos bons dispositivos eletrônicos aqui.
Natal é uma cidade já confirmada. Marcada pelo lápis das estadísticas.
Seria tudo um sonho?

Ritual de partida:
Puxo a cordinha e soa o sinal de alerta
(agora todos já podem se despedir de mim).
O motorista me acena com a cabeça.
Houve aí uma bela conversa batida na simplicidade.

As frases deverão rumar em feitio de verso para outras laudas – que passem pela Rodoviária Nova e sigam para o resto do Oeste, que é onde se dormem as coisas (que ainda é noite). 

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